A coluna rebelde que Spínola e Costa Gomes impediram de ocupar o Aeroporto de Lisboa

16 de Março de 1974. Armando Marques Ramos recorda, 40 anos depois, o dia em que comandou a coluna militar desde o Regimento de Infantaria das Caldas da Rainha até ao objetivo dos duzentos militares revoltosos: ocupar o Aeroporto de Lisboa. Ao DN revela que só não cumpriu o plano da operação porque recebeu ordens dos generais Spínola e Costa Gomes para regressar ao quartel. Descreve o encontro com a GNR enviada para repelir a coluna e a frustração por não ter acontecido o combinado com vários capitães, uma saída conjunta dos quartéis para derrubar o Governo de Marcelo Caetano. por João Céu e Silva

A coluna militar do 16 de março
A coluna militar saída das Caldas da Rainha fotografada nos arredores de Lisboa na manhã do 16 de março de 1974

A imagem que ficou na memória dos portugueses sobre a intentona tentada pelo Regimento de Infantaria N.º 5 das Caldas da Rainha no dia 16 de Março de 1974 foi a de uma coluna militar que ficou parada às portas de Lisboa. Ilustrava perfeitamente o golpe militar frustrado, que só teria o seu epílogo a 25 de Abril, e que logo deu origem a uma anedota bastante popular. A de que os camiões com 200 militares que iriam ocupar o Aeroporto de Lisboa teriam parado às portas de Lisboa porque o então presidente da República, Américo Tomás, ameaçou que o primeiro a chegar à capital seria obrigado a casar com a sua filha.

É claro que esta versão nada tem que ver com a verdade, mesmo que a versão correta até hoje ainda esteja longe de estar fixada pelos protagonistas. A anedota nem sequer é tema de conversa quando se pede ao comandante da coluna militar, o atual tenente-coronel Armando Marques Ramos, para recordar essa madrugada interrompida no caminho das mudanças políticas do Portugal governado por Marcelo Caetano. Mas Armando Ramos não deixa de colocar uma outra situação que caracteriza como uma quase piada, a da aclamação eufórica promovida pelos adeptos do derby Sporting/Benfica do dia 31, que sossegou Caetano face ao apoio popular após os mais recentes acontecimentos políticos que fizeram tremer muito o regime.

É que a anteceder o 16 de Março tinham-se verificado mais dois factos políticos que fizeram o presidente do Conselho hesitar: a 22 de fevereiro dera-se o lançamento do livro Portugal e o Futuro do general Spínola, que defendia uma solução política e não militar para a guerra no Ultramar; a 14 de março, o Governo demitira os generais Spínola e Costa Gomes dos cargos de chefe e vice-chefe de Estado-Maior General das Forças Armadas, devido à ausência no evento em que as chefias militares se solidarizavam com Caetano ,numa cerimónia definida como representativa da “Brigada do reumático”.

A demissão dos dois generais espoletou a Intentona das Caldas e criou esse ato militar falhado. Segundo o historiador, e biógrafo de ambos os generais, Luís Nuno Rodrigues, o que se passou foi o seguinte:“A 16 de março, os jovens oficiais do MFA afetos ao general Spínola decidiram ser a altura de passar à ação. E lançaram a sua tentativa de golpe militar que teria como objetivo colocar Spínola no poder. A ação foi em grande parte motivada pela tomada de posição de alguns oficiais do CIOE de Lamego (que acabariam por não sair do quartel), pelas atitudes de antigos oficiais de Spínola na Guiné, e pelo ímpeto dos oficiais oriundos de milicianos do RI 5 das Caldas da Rainha. Recebeu, depois, enquadramento e tentativa de coordenação por parte de quatro oficiais do MFA reunidos em casa de Manuel Monge (o próprio e também Armando Ramos, Casanova Ferreira e Otelo Saraiva de Carvalho) que, de pronto, procuraram reunir apoios de outras unidades para o golpe militar.”

Esta movimentação foi, refere o historiador, “legitimada pelo próprio Spínola, que apoiou os oficiais, dando inclusivamente diretivas sobre o modo de conquistar mais apoios e de mobilizar maior capacidade de fogo. No dia seguinte, Spínola desabafaria: “Os rapazes precipitaram-se.”

Revelação de Armando Ramos

Armando Marques Ramos
Armando Ramos era o comandante da coluna militar que saiu a 16 de Março de 1974 das Caldas da Rainha

Armando Marques Ramos é o comandante à força da coluna militar pois nenhum dos oficiais mais graduados do Regimento das Caldas quis liderar. Fazia parte da Comissão Militar do MOFA (pré-MFA) e diz, 40 anos depois, que ao saberem que o destacamento de Lamego “estava sobre rodas a caminho de Lisboa, resolvemos desencandear aquilo e fazer telefonemas para todas as unidades de modo a mobilizar os quartéis.”

A partir desse momento, Armando Marques Ramos conta o que se passou: “Eu era o primeiro a sair e pensávamos que as outras unidades começariam todas a saltar. Como o meu objetivo era tomar o Aeroporto de Lisboa, do qual já tinha feito o reconhecimento, comandei a coluna até pararmos perto das antigas portagens da autoestrada, na descida para o rio Trancão, onde estava a GNR à nossa espera. Mandei parar a coluna e fui falar com o responsável, o tenente Braga, que informou ter de nos identificar. Recusei fazê-lo, bem como aos meus homens, e sugeri que nos portássemos como cavalheiros: você recua para a sua força e eu para a minha depois de nos entendermos em vez de haver tiros. Ele disse-me que não estava preparado para a guerra, que só tinha um pingalim consigo, e via-se que os seus homens tinham-se arranjado à pressa. Foi uma conversa bizarra.”

Armando Ramos continua o relato: “Ele deixa-nos avançar depois de informar os seus superiores e prosseguimos a caminho de Lisboa. E avançamos até encontrar dois civis no meio do lusco-fusco da madrugada, que até pensei serem dois pides que nos iriam dar problemas, mas não. Um deles era o Monge – de sobretudo com as golas para cima – que me disse que tínhamos de voltar para trás. Eu respondi que não recuava com mais de 200 homens comigo e que ia cumprir o plano. Fizera o reconhecimento do Aeroporto e, se a coisa desse para o torto, tomaria conta das pistas. Quando lhes disse ‘Vamos para a frente’, respondem-me que sou maluco e que poderíamos fazer o mesmo ao barricarmo-nos nas Caldas. Até se debateu a estratégia porque se achava que o movimento estava na rua. Só que não era assim, nem o podíamos saber porque não havia comunicações. Todos disseram que saíam e afinal fomos enganados. Depois, Spínola enterrou-nos vivos, mesmo que não tivesse nada a ver com o 16 de Março.”

Para o comandante da coluna das Caldas existe uma mentira histórica que continua a ser repetida até pelos historiadores: “Que não chegámos ao aeroporto porque estava uma força da GNR à nossa espera. É falso! Sabíamos que podíamos morrer se continuássemos, mas foi a ordem dos generais Costa Gomes e Spínola para regressar às Caldas – após serem contactados sobre a movimentação –, e que nos foi transmitida por Monge, que nos fez parar.” Como garantia diz: “Quem está viciado na guerra não voltaria para trás por aquilo!”
Remata: “Voltámos à vontade para o quartel e só houve uma avioneta que nos sobrevou na parte final. Não sei quem era. Nas Caldas, ficámos muito tempo a negociar, convencidos de que estavam a saltar outras forças amigas mas não saem porque Monge mandou-as parar por entenderem que não era a altura.”

Foi a intentona um fracasso? Para Marques Ramos é claro: “O 25 deAbril começou no 16 de Março e só por isso pôde ser a Revolução de flores, em vez de haver centenas de mortos.” E o 25 de Abril foi o dia em que os protagonistas das Caldas perceberam que iriam deixar a prisão da Trafaria, onde estavam encarcerados desde a intentona.

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