“Não tenho dúvidas de que a revolução ressurgirá”

Assinalamos 40 anos da Revolução dos Cravos com 40 entrevistas, publicando uma por dia. Homenageamos o escritor Baptista-Bastos, cronista do DN, inspirando-nos na sua célebre questão – “onde estava no 25 de Abril?” – para escolher as dez perguntas deste inquérito. E é ele o primeiro entrevistado.

› Nasceu em Lisboa em 1934 › Jornalista e escritor › Segura uma fotografia de maio de 1974, onde está com Ângela de Oliveira, Carlos de Oliveira e Álvaro Guerra na receção aos exilados políticos na Associação Portuguesa de Escritores.
Baptista-Bastos nasceu em Lisboa em 1934. Jornalista e escritor. Segura uma fotografia de maio de 1974, onde está com Ângela de Oliveira (esq.), Carlos de Oliveira e Álvaro Guerra (dir.) na receção aos exilados políticos na Associação Portuguesa de Escritores (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de abril?
No dia 25 de abril estava à espera do 25 de Abril. Não é charada. Por essa época almoçava, diariamente, no Andorinhas, um restaurante perto do jornal República, com o Álvaro Guerra (mais tarde fez carreira de embaixador) e o Álvaro Belo Marques. Um dia, o Álvaro Guerra perguntou-me se estava interessado em envolver-me num golpe para acabar com o regime que nos sufocava. Eu tinha entrado em muitos e em conspirações, todos falhados, pagara caro por isso e não acreditava em nada. Tinha dois filhos, o terceiro nasceria em plena liberdade, a 18 de outubro de 1975, e não estava disposto a permitir que fossem para a guerra. Preparava-me para viajar, com a família, para o exílio. Para isso falara com o meu velho amigo Urbano Tavares Rodrigues, a fim de ele me arranjar documentos de fuga. Para onde? Paris era o mais provável, ou Londres, onde havia algumas possibilidades de trabalho. Andava nestas hesitações. Sou lisboeta, amo como poucos Lisboa e os seus, que são os meus, e procurava alternativas.
Qual foi a sua reação?
Na madrugada do 25 de Abril telefona-me o Abel Pereira, chefe da redação do Diário Popular, onde trabalhava desde 1965, e disse–me as frases que nunca mais esqueci: “Salta da cama, Bastos! A revolução está na rua e, desta vez, vais escrevê-la!” A cidade já se movimentava, àquela hora da madrugada. Instalara-se um estranho silêncio, interrompido, aqui e acolá, por um grito avulso. Quando cheguei ao Popular já lá estavam camaradas meus. Abraçámo-nos, “é agora!, é agora!”, lágrimas furtivas. “Bom”, disse o Abel, “há um jornal a fazer”. E que jornal! No dia 25 de abril começava o sonho. Quem lá não esteve não pode imaginar o tamanho descomunal desse sonho.
Que episódio o marcou mais?
Horas mais tarde, quando as peripécias no Quartel do Carmo chegavam ao fim, disse ao José de Freitas, um velho jornalista causticado por tudo de mau que pode acontecer a um homem livre: “Caiu o fascismo, Zé! Caiu o fascismo!”, corriam as lágrimas nas nossas faces. E ele: “Vamos lá ver, vamos lá ver.” Depois, telefona-me de Beja o Manuel da Fonseca: “Que se passa?”, e a mesma frase:  “Caiu o fascismo!”, o Manel a soluçar do outro lado e eu a deixar correr toda a alegria do mundo.
Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?
Claro que foi o Otelo. E o Salgueiro Maia e o Melo Antunes, o Vítor Alves, o Vasco Lourenço. E o Vasco Gonçalves. E aquele soldado jovem, em cima de um tanque, espingarda na mão, um cravo na outra. Uma estátua comovente a simbolizar a nossa liberdade. Todos eles e todos nós.
O que mudou na sua vida pessoal?
Muita coisa. Sobretudo os meus conceitos de vida. Entrei, entrámos em euforia. Bebíamos em excesso porque julgávamos que tudo nos era permitido, e não era. A ressaca foi tremenda. Mas faço questão em dizer isto: não troquei de amigos, não modifiquei amizades, continuei a frequentar aqueles que frequentava antes da Revolução. Desejo lembrar um entre eles, o meu saudoso e querido companheiro João Coito, grande jornalista, homem de direita, que nunca abjurou e foi fiel às suas convicções até ao fim. Nem sempre os que se diziam de esquerda tiveram o comportamento moral e a integridade do João Coito.
O que de positivo trouxe o 25 de Abril?
A possibilidade de sermos protagonistas da História.
E de negativo?
A ascensão dos insignificantes, logo assim que a Revolução foi “normalizada”, pelas poderosas forças do dinheiro e pela capitulação de muitos daqueles que não deviam capitular. O PS tem altas responsabilidades nesse recuo histórico e os resultados estão à vista. Mas a História, não o esqueçamos, caminha no sentido da libertação do homem.
O que falta mudar?
A democracia, tal como é entendida pela classe dominante. Estes sujeitos são mesmo democratas? Destruíram os laços sociais que, dificultosamente, havíamos reconstruído; criaram um País de fome, de miséria e de desespero, cujo edifício malévolo começou a refazer-se logo em 1976, e resultou nesta epidemia de biltres. Expurgaremos, de certeza, estas forças do Mal.
Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?
Faz. Como lembrança de um episódio luminoso. Disse Brecht: “Os homens são feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos.” Cuidado: os homens sonham! E, ao contrário do que para aí disse um banqueiro néscio, eles não aguentam sempre tudo.
O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?
Não tenho dúvidas de que ela, a revolução, ressurgirá. Acaso com outras características, mas com o núcleo central intacto: liberdade, igualdade, fraternidade.
Entrevista editada por Bárbara Cruz

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