O 16 de Março

A história da intentona das Caldas ainda não está definitivamente escrita e são várias as questões que estão por resolver mesmo que em certos pontos os historiadores concordem. Dois historiadores, Fernando Rosas e Rui Ramos, respondem a algumas perguntas

A intentona das Caldas não deveria ter posto
o regime em alerta, de forma a evitar o 25 de Abril?

Fernando Rosas

› É sintomático o facto de o regime não ter sido capaz de interpretar um sinal inequívoco de tentativa de golpe e que não tenha sido capaz de tomar nenhuma medida séria para desarticular o movimento militar. O regime está demasiado fraco e a PIDE não se intromete nas questões da Polícia Militar, mesmo sabendo que algo se passa com os militares.

Rui Ramos

› Pode até ter tido o efeito contrário, o de sossegar sectores do regime em relação à capacidade de iniciativa dos movimentos dos capitães, e que ao serem derrotados e presos nada mais havia a recear. Ao contrário, os jovens oficiais apreenderam bem a desorientação do regime e do Governo e a divisão nos sectores que apoiavam a ditadura.

 

O 16 de Março foi  o catalisador do 25 de Abril?

› O catalisador é a circunstância de os militares estarem cansados da guerra. É a rápida consciência de que é preciso derrubar o poder e passar de movimento corporativo para sedicioso que explica tudo. Há outro sinal: o livro de Spínola. Que é fatal e faz  Caetano querer resignar. O 16 de Março faz os militares pensarem que é preciso agir depressa.

› Sem diminuir o papel do 16 de Março diria que foi a situação política e económica em que o País está desde 1973, os efeitos sociais da inflação, bem como a desorientação da elite política perante o problema militar em África. É o total fracasso da ditadura e a crise nas chefias militares que catalisam os movimentos que já ultrapassam as questões corporativas.

A vinda da coluna até Lisboa uniu os militares para a Revolução de 25 de Abril?

› É uma polémica que permanece até hoje ao discutir-se ainda se teria sido ou não uma tentativa spinolista para captar o movimento. Há muitos argumentos para ambas as situações. Inclino-me mais para a precipitação porque há uma reação de jovens oficiais fiéis a Spínola e Costa Gomes que reagem intempestivamente aos acontecimentos.

› O 16 de Março revelou alguma desagregação entre os grupos envolvidos na conspiração. Eram muitos e variados e as Caldas é a iniciativa de uns que outros ignoram. Que faz sentir aos vários grupos que é necessário fazer algo após a demissão de Spínola e Costa Gomes pela sensação de que estavam a perder posições se não fizessem nada contra o regime.

É válida a tese de que a revolta militar se deve à questão salarial e corporativa?

› Não tem sentido porque essa foi a fase inicial. Quando os militares passam à ação já o diferendo entre os capitães de Abril e os milicianos estava resolvido. O importante é o Governo ter recuado totalmente e os capitães terem percebido que o pretexto da gestão corporativa e de carreira os poderia levar mais longe e permitiria acabar com a guerra.

› Penso que não. Estavam mais preocupados com a dignidade das ForçasArmadas e em não serem culpados pelo fracasso da guerra. O facto de as oposições políticas não terem capacidade para mudar o regime provoca um vazio e cabe aos capitães tomarem a iniciativa porque são empurrados para o palco. 1974 era um drama à procura de atores.

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