“O saldo é positivo e a liberdade vale bem o que se sofreu”

José Miguel Júdice nasceu em Coimbra, em 1949. Licenciado em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra em 1972. Sócio da PLMJ desde 1980. Bastonário da Ordem dos Advogados entre 2002 e 2005. Segura uma fotografia de 1974, onde posa com os dois filhos mais velhos (Steven Governo/Global Imagens)

 Onde é que estava no dia 25 de abril?

A dar aulas na Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra.

Qual foi a sua reação?

De grande esperança e otimismo: pelas oito da manhã, o meu amigo Vieira de Andrade, hoje professor catedrático da faculdade, chegou a minha casa a dar a notícia e com as nossas mulheres abrimos uma garrafa de vinho do Porto Lacrima Christi e brindámos ao fim do regime. Foi a primeira e última vez que bebi vinho do Porto tão cedo…

Que episódio o marcou mais?

A esperança de tantos, que seguramente queriam coisas diversas. Mas não queríamos o regime que estava a cair.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Sem dúvida o general Spínola.

O que mudou na sua vida pessoal?

Na altura, nada. Depois, vim a ser suspenso pela extrema-esquerda estudantil de dar aulas, fui saneado por uma coligação de comunistas, cobardes e oportunistas, fui detido por uma aliança de tontos, impreparados, ingénuos e tropa fandanga, demitido sem direito de defesa por um alucinado major que a loucura do tempo fez ministro da Educação. Fui forçado ao exílio, para mais tarde o próprio Conselho de Revolução me reintegrar no ensino, visto que nada havia contra mim, mesmo aplicando a celerada lei 8/75 que permitia condenar mesmo sem prova de nenhum ato pessoal ilegal ou desonroso.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A liberdade.

E de negativo?

A forma como se deu cabo da economia do País, se inventaram direitos sem meios para os assegurar, se destruiu a criação de riqueza, se criou uma classe política analfabeta tantas vezes e que torrou dinheiro de forma criminosa.

Sempre que na história se optou por ruturas em vez de reformas, os sofrimentos foram maiores  e os resultados positivos menores

O que falta mudar?

Criar uma cultura de responsabilidade, de direitos com deveres. E acabar com a cultura do medo que ainda existe.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Se não for um álibi e um facilitismo. Apesar de tudo, o saldo é muito positivo e a liberdade vale bem o que se sofreu.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Tenho receio ou acho ridículo, consoante quem o afirma. Sempre que na história se optou por ruturas em vez de reformas, os sofrimentos foram maiores  e os resultados positivos menores.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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