“Está por cumprir o sonho de abril, falta-nos liberdade”

Lisboa - 40ºaniversário 25 Abril
Alexandre Soares dos Santos nasceu no Porto, em 1934. Deixou a meio o curso de Direito em Lisboa na década de 1960, foi diretor de marketing da Unilever no Brasil. Criou, em 2009, a Fundação Francisco Manuel dos Santos. Deixou em 2013 a presidência do grupo Jerónimo Martins (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de abril?

Estava em minha casa, em Lisboa. Fui acordado às cinco da manhã pelo Dr. José Luís Nogueira de Brito, avisando-me que tinha sido informado de que algo se passava, porque havia movimentos de tropas.

Qual foi a sua reação?

Presumindo que se tratava de um golpe militar, telefonei imediatamente, apesar da hora, para o diretor de recursos humanos da Fima Lever, o Dr. José Carlos Cardoso, e combinámos um encontro nos escritórios da companhia para tomarmos as decisões que fossem necessárias.

Que episódio o marcou mais?

Fui aluno do professor Marcello Caetano na Faculdade de Direito, onde o ouvi dissertar sobre o fenómeno do comportamento das massas. Nessa altura, não podia supor que o próprio viria a ser alvo dessa reação das massas de que falava com tanto à-vontade: dias antes do 25 de Abril, no Estádio de Alvalade, num derby Sporting-Benfica, vi o professor Marcello Caetano ser tremendamente ovacionado pelo povo no local. Dias depois, no 25 de Abril, impressionou-me a alegria contagiante do povo a festejar na rua a sua deposição. Eu próprio saí à rua com os meus filhos rapazes. No 1.º de Maio que se seguiu percebi que o Partido Comunista tinha tomado conta do poder. A alegria acabou, ficou claro que a nova era que poderia abrir-se para Portugal não estava à altura do sonho de liberdade.

Qual é a figura que marcou o 25 de Abril?

Uma coletiva e uma individual. A personagem coletiva foi o povo português que, sem violência nem ódio, saiu à rua e fez a festa da liberdade. A figura foi Marcello Caetano, que não ofereceu qualquer resistência. Não deixa de impressionar a total passividade do regime e a enorme fragilidade sobre a qual assentava.

O que mudou na sua vida pessoal?

Felizmente, não mudou rigorosamente nada.

Está por cumprir o sonho de Abril: falta-nos liberdade, temos Estado a mais e democracia a menos. A nossa democracia é imatura e insuficiente e não vale a pena desculparmo-nos com a sua juventude porque aos 40 anos já ninguém tem o direito de ser inconsciente ou irresponsável

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A promessa da democracia e da liberdade.

E de negativo?

A destruição do tecido agrícola e industrial do País pelo PCP, a injeção do ódio entre classes sociais e as perseguições individuais.

O que falta mudar?

Tudo. Está por cumprir o sonho de Abril: falta-nos liberdade, temos Estado a mais e democracia a menos. A nossa democracia é imatura e insuficiente e não vale a pena desculparmo-nos com a sua juventude porque aos 40 anos já ninguém tem o direito de ser inconsciente ou irresponsável.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Faz e fará sempre, na medida em que a democracia e a liberdade devem ser debatidas, praticadas, cultivadas e regadas como se fossem uma flor rara.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Acredito pouco no poder transformador das revoluções. A não ser que sejam revoluções de mentalidades. E Portugal precisa de mudar a sua mentalidade, de ganhar ambição e orgulho em ser quem é.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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