“Foi, repito-o sempre, o dia mais feliz da minha vida”

› Nasceu no Porto em 1952, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares › Na foto acima, de 1974, Miguel Sousa Tavares (ao lado do pai) aguarda com outras personalidades a libertação de presos políticos em Caxias
Miguel Sousa Tavares nasceu no Porto em 1952, filho da poetisa Sophia de Mello Breyner e do advogado e jornalista Francisco de Sousa Tavares. Na foto acima, de 1974, Miguel Sousa Tavares (ao lado do pai e de Salgado Zenha) aguarda com outras personalidades a libertação de presos políticos em Caxias

Onde estava no 25 de Abril?

Embora ainda fosse estudante, eu já estava casado e na véspera tínhamos inaugurado uma nova casa. Antes de dormir, pedi aos deuses que a casa nos desse sorte. No dia seguinte, aí pelas sete da manhã, acordei com murros na porta porque ainda não havia campainhas na casa: era um amigo meu a dizer-me que estava uma revolução na rua.

Vesti-me a correr, telefonei ao meu pai e a minha mãe disse-me que ele estava com os revoltosos no Largo do Carmo. Ainda cheguei a tempo de o ver em cima da guarita e de saber que o meu cunhado estava na coluna do Maia.

Fiquei por ali, de manhã e de tarde, até os militares começarem a partir, e só me lembro de chorar ao aplaudi-los. Foi, repito-o sempre, o dia mais feliz da minha vida.

Qual foi a sua reação?

Nem sei bem descrever. Só conseguia pensar que o sonho se tornara realidade, que ia viver num país livre onde os filmes, os livros e as revistas não eram proibidos, onde os jornais podiam publicar o que quisessem, onde quem queria viajar para o estrangeiro não se tornava suspeito.

Que já não tinha de escolher entre ir para a guerra de África ou exilar-me, que já não tinha de olhar em redor antes de falar, que já não tinha de ver mais a indigna gente do Estado Novo, o patético e cobarde presidente Tomás, a cara de facínoras dos pides e tudo o resto.

Em Caxias, tive a sensação nítida de estar a ver acontecer História quando as portas da prisão onde tantas vezes tinha ido visitar o meu pai, preso, se abriram finalmente para libertar todos os que lá estavam

Que episódio o marcou mais?

A libertação dos presos políticos em Caxias, no dia seguinte.

Dois deles eram defendidos pelo meu pai e eu tive a sorte de o acompanhar nas longas negociações à porta da prisão, com outros advogados como Xencora Camotim, Jorge Sampaio, Salgado Zenha, Manuel João da Palma Carlos.

Todos eles, os advogados dos presos políticos, foram muito justamente homenageados recentemente numa cerimónia na Assembleia da República. Em Caxias, tive a sensação nítida de estar a ver acontecer História quando as portas da prisão onde tantas vezes tinha ido visitar o meu pai, preso, se abriram finalmente para libertar todos os que lá estavam.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Indiscutivelmente Salgueiro Maia. Uma horta, ou uma conspiração, é composta de várias espécies indispensáveis. Mas se não houver tomates a horta e a conspiração não resultam no mesmo. E ele, que de facto derrubou a ditadura, nada quis para si depois.

Meses depois, tive o meu primeiro emprego de facto, e logo na Comissão de Extinção da PIDE – na prisão de Caxias, por ironia do destino. De repente, vi-me a interrogar os pides

O que mudou na sua vida pessoal?

Tudo, quase. Para começar, logo nesse dia comprei uma televisão, que era um objeto que eu tinha jurado que jamais entraria em minha casa pois dava-me vontade de a partir quando via os noticiários.

Meses depois, tive o meu primeiro emprego de facto, e logo na Comissão de Extinção da PIDE – na prisão de Caxias, por ironia do destino. De repente, vi-me a interrogar os pides, e uma vez em que tive de interromper o interrogatório porque era a hora da visita semanal dele, um oficial do MFA perguntou-me se eu queria que a visita fosse cancelada. Lembrei-me de quanto o meu pai vivia dependente emocionalmente das visitas semanais e disse que não, que suspendia o interrogatório. E o oficial disse-me que  nesse caso, e como não havia mais ninguém disponível, ficava eu de guarda à visita. Passou-me um revólver para a mão e eu fiquei fechado uma hora na cela, com um pide e toda a sua família, de revólver na mão e esforçando-me por não ouvir as conversas deles. Mas foi em Caxias também que comecei a perceber que o 25 de Abril estava a ser roubado quando vi os elementos do Partido Comunista Português que lá estavam, e sob a proteção dos oficiais de Marinha que ocupavam o forte, começarem a carregar camiões de processos e dossiers 26 que mais tarde apareceram em Moscovo. Demiti–me e fui à vida. Fui ser jornalista, em liberdade – o meu sonho de sempre.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Liberdade, liberdade, liberdade. Mais o fim da guerra colonial e a entrada na Europa – outra Europa, não a que agora existe.

E de negativo?

Não penso que o 25 de Abril seja responsável por aquilo que de negativo nos aconteceu nos últimos 40 anos. A responsabilidade é nossa, de algumas características nossas, que vêm de muito longe e estão para lá de qualquer regime. Há um pecado original de avaliação em relação ao 25 de Abril, que é o de se ter imaginado que todos eram antifascistas e defensores da liberdade. Não eram, era uma minoria ínfima.

Infelizmente, eu acho que os portugueses não valorizam a liberdade como o mais precioso dos bens políticos e daí confundirem facilmente a liberdade e o 25 de Abril com a prosperidade. São coisas diferentes: a liberdade dá-nos a possibilidade de sermos donos do nosso destino; a prosperidade depende daquilo que formos capazes de fazer com isso. Trouxe a contrapartida da liberdade, que é a irresponsabilidade. Mas o preço vale bem a pena. Ninguém disse que a democracia era um sistema perfeito.

O 25 de Abril foi, como disse, o dia mais feliz da minha vida, mas eu nunca o festejo porque acho que hoje não faz sentido algum. Com o tempo, vai acabar como os patéticos festejos do 5 de Outubro

O que falta mudar?

Muita coisa, que não tem que ver com o 25 de Abril, mas com o nosso carácter, individual e coletivo.

Falta na classe política o sentido de missão de serviço público. Falta entre a classe civil privilegiada a noção anglo-saxónica do payback. E falta, no resto da sociedade civil, a noção de que temos direitos mas também deveres para com o Estado e o nosso país.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Não faz sentido nenhum. A meu ver, os ideais de Abril, bem ou mal, estão cumpridos e esgotados enquanto programa ideológico ou político.

E não há nada mais triste do que ficar eternamente a celebrar um dia apenas na vida de uma nação como se esse dia pudesse valer para sempre e o simples facto de o invocarmos nos dispensasse de construir todos os outros dias do presente e do futuro. O 25 de Abril foi, como disse, o dia mais feliz da minha vida, mas eu nunca o festejo porque acho que hoje não faz sentido algum. Com o tempo, vai acabar como os patéticos festejos do 5 de Outubro.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

É conversa da “brigada do reumático” do Movimento das Forças Armadas. Quando vejo alguns capitães de abril ameaçar-nos com um novo 25 de Abril – isto é, com um golpe de Estado contra a democracia – concluo que eles não perceberam nada do 25 de Abril, continuam a achar que têm direitos especiais sobre a situação política só porque são militares e “de Abril”. E, intimamente, desejo que se calem com essa conversa para preservarmos o que resta da memória da sua generosidade de então.

Neste País há “pais” para tudo: há os pais do 25 de Abril, os pais da Constituição, os pais do Serviço Nacional de Saúde, etc., etc. E que tal se os pais dessem lugar aos filhos? Eu não acredito em revoluções, acredito em transformações – que são bem mais difíceis de fazer.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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