“A maior parte dos portugueses estava ávida de mudança”

Ana Salazar nasceu em Lisboa, em 1941. Estilista, é considerada pioneira da moda em Portugal. Em 1978, começou a criar coleções em nome próprio para vender nas lojas em Portugal e também para o estrangeiro. Na foto posa com os funcionários frente à antiga loja Maçã, na Rua do Carmo, na década de 70 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Em Lisboa. Apesar de o movimento ter começado de madrugada, só às sete da manhã é que me apercebi de que algo estava a acontecer. Telefonemas, notícias na rádio, agitação nas ruas… Apesar disso, fui para a minha loja a Maçã, que tinha sido inaugurada em 1972 e, como normalmente refiro, foi a revolução antes da revolução, considerando o panorama da moda que se vivia em Portugal nessa altura.

Qual foi a sua reação?

Tive uma boa reação porque me convenci de que a revolução fosse mudar os brandos costumes da cultura conservadora vigente.

Que episódio a marcou mais?

A esperança manifestada nos rostos e nas atitudes, não só dos militares, mas também das pessoas, e que foi mostrada pelos meios de comunicação existentes: semblantes felizes, cheios de um sentimento de mudança.

Qual é a figura que marcou o 25 de Abril?

Penso que a atitude do capitão Salgueiro Maia foi a que mais se destacou, ao liderar o Movimento das Forças Armadas e enfrentar Marcelo Caetano.

O que mudou na sua vida pessoal?

Ao princípio, foi benéfico em todos os aspetos. Em termos económicos foi excelente, pois as pessoas, até as mais conservadoras, sentiram a necessidade de mudar em consonância com o momento e começaram a vestir-se de uma forma mais inovadora, pondo de parte alguns preconceitos.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A maior parte dos portugueses estava ávida de mudança e de novidade. As mentalidades conservadoras necessitavam de ser abaladas, por isso a ideia de maior liberdade apareceu como a hipótese de melhores perspetivas, quase uma salvação.

E de negativo?

Na altura, nada foi negativo. Mais tarde, e já no período de Vasco Gonçalves, surgiram boatos de que a concessão de licenças de importação ia diminuir ou mesmo ser extinta, o que seria complicado, pois na altura todo o nosso negócio assentava na importação. Eu reconverti a situação: enquanto inúmeras fábricas de vestuário fechavam, eu abri uma com quase 50 costureiras e comecei a exportar.

O que falta mudar?

Falta mudar tudo, sobretudo ao nível da evolução mental e cultural dos portugueses, que vivem num sebastianismo e dependência da incompetência dos sucessivos governos estagnados.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Não faz. Passados 40 anos, a suposta revolução foi falsa. Serviu só para beneficiar poderes instalados e nunca os cidadãos. Os ideais foram vãos e nada democráticos.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Concordo. Não deixa de ser sintomático que a nossa economia esteja a refletir as fragilidades gritantes do atraso do País. Urge uma revolução na atitude e dinâmica dos indivíduos, de forma a competir de igual para igual com os países mais desenvolvidos da UE.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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