“A revolução tem de passar pelas mentalidades”

Arménio Carlos nasceu em 1955 em Carnaxide, Lisboa › Entrou na Carris como oficial de terceira, em janeiro de 1974 › Adere ao PCP em 1977 e tem atividade sindical desde a década de 1980 › Secretário-geral da CGTP desde 2012 › Segura uma foto sua de 1974
Arménio Carlos nasceu em 1955 em Carnaxide, Lisboa. Entrou na Carris como oficial de terceira, em janeiro de 1974. Adere ao PCP em 1977 e tem atividade sindical desde a década de 1980. Secretário-geral da CGTP desde 2012. Segura uma foto sua de 1974 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde estava no 25 de Abril?

Estava a sair de casa, às sete horas da manhã, quando tive conhecimento de que se tinha verificado uma revolução. A partir daí, segui com expectativa e, simultaneamente, alegria aquilo que se estava a passar.

Qual foi a sua reação?

Foi uma reação idêntica à daquelas pessoas que estão amarradas e são libertadas. Foi como passar de uma noite escura para um dia de céu azul e sol radioso.

Que episódio o marcou mais?

Eu tinha 18 anos e, a par da liberdade, a questão fundamental para mim foi ter a expectativa de que já não ia ser mobi­lizado para a guerra colonial. Era um problema que a esmagadora maioria dos jovens tinha: sabíamos que chegávamos aos 20 anos e tínhamos de ir para a tropa. E todos iríamos para a guerra colonial. Foi algo que me acompanhou desde os 12 anos, a ideia de que me ia despedir dos meus amigos. Foi um dos momentos mais significativos.

Qual é a figura que, na sua opinião, marcou o 25 de Abril?

Creio que há três figuras. Uma, que é coletiva, o Movimento das Forças Armadas. Sem os capitães de abril não teríamos a revolução de abril. Uma segunda figura, o general Vasco Gonçalves, porque foi ele que, enquanto primeiro-ministro, deu um salto qualitativo no que diz respeito não só à rutura com o regime mas também à implementação de um conjunto de medidas que vieram trazer mais solidariedade, mais justiça na distribuição do rendimento, mais estabilidade no que respeita ao emprego. Uma terceira, que tem que ver já com o 25 de Abril e sua expansão nos anos seguintes, foi Álvaro Cunhal, pela coerência mas também pela visão estratégica para a defesa dos interesses nacionais e desenvolvimento do País.

O que mudou na sua vida pes

Arménio Carlos nasceu em 1955 em Carnaxide, Lisboa › Entrou na Carris como oficial de terceira, em janeiro de 1974 › Adere ao PCP em 1977 e tem atividade sindical desde a década de 1980 › Secretário-geral da CGTP desde 2012 › Segura uma foto sua de 1974
Arménio Carlos nasceu em 1955 em Carnaxide, Lisboa. Entrou na Carris como oficial de terceira, em janeiro de 1974 Adere ao PCP em 1977 e tem atividade sindical desde a década de 1980. Secretário-geral da CGTP desde 2012. Segura uma foto sua de 1974

soal?

Desde logo, foi ter a garantia de poder estabilizar a minha vida do ponto de vista pessoal, familiar e profissional. Comecei a encarar a vida noutro contexto: para quem estava condenado, ou quase condenado, a ir para a guerra colonial, sentir que podia não fazer a guerra fez-me pensar imediatamente  em constituir família e ter filhos. Aliás, um dos problemas que agora temos é o da quebra da natalidade, nessa altura foi uma das questões que imediatamente senti como possível de concretizar. Fui pai em janeiro de 1976.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Muita coisa. Não foi só a liberdade, a democracia, a descolonização. Quando o 25 de abril foi feito, teve como pressuposto três grandes linhas de orientação: desenvolvimento, democracia e descolonização. O desenvolvimento está associado à democracia, porque a partir dali verificou-se um conjunto de alterações na legislação que existia, desde logo na componente laboral e social: a implementação do salário mínimo nacional, do direito a férias, do direito à greve, do direito à liberdade sindical, à contratação coletiva, do direito à proteção social. Um conjunto muito vasto de direitos que foram conquistados. Mas não só: houve outras medidas implementadas com grande sucesso, por exemplo, a alfabetização. Criaram-se as condições de acesso à prevenção na saúde para todos os portugueses, que viram aumentada a esperança média de vida, e outras medidas que tiveram como reflexo a diminuição da mortalidade infantil. E podia dar aqui mais uma série de exemplos sobre educação: tenho dois filhos licenciados que, se porventura não tivéssemos a revolução, dificilmente poderiam ter ido para o ensino superior, porque havia um estigma, uma espécie de limitação, o superior era dirigido a determinado tipo de camadas da população.  Todos os outros tinham de entrar na escola comercial ou na escola industrial para trabalharem, era esta a filosofia. Desse ponto de vista, houve conquistas muito significativas.

Assinalo duas outras conquistas, que são marcantes: uma, que resultou nas nacionalizações de um conjunto de empresas estratégicas para o desenvolvimento do País, que se provou terem facultado ao Estado mecanismos que permitiram, por exemplo, a eletrificação de todo o País,  a resposta à rede de saneamento básico praticamente em todo o território, a distribuição de água, tudo isso emanou da nacionalização dessas empresas que, estando ao serviço do País, imediatamente puderam ser utilizadas para responder às necessidades de toda a população num contexto de coesão territorial e social.

Houve outra conquista que foi muito mal tratada, muito injuriada, muito caluniada, mas que teve um papel preponderante: a reforma agrária. Os trabalhadores pegaram nos seus instrumentos e cultivaram a terra, até aí estavam impedidos de o fazer, produziram, criaram riqueza e depois foram agredidos. Nalguns casos até houve mortes, outros foram caluniados e injuriados. E hoje temos a situação que é conhecida em termos da agricultura em Portugal.

E de negativo?

Acho que o elemento negativo do 25 de Abril está associado àqueles que, dizendo-se democratas e defensores do 25 de Abril, estiveram na primeira linha da intriga e da contestação interna que depois veio a originar o 25 de Novembro. E tudo o que se passou a seguir.

O que falta mudar?

Desde logo, de Governo e de política. E depois, falta repor aquilo que foram os ideais,  mas que não são só ideais, são direitos, liberdades e garantias que hoje estão consagradas na Constituição da República portuguesa e que em muitos casos estão a ser violadas sistematicamente. Veja-se, recentemente, as decisões do Tribunal Constitucional, que colocam este Governo como aquele que mais vezes, num curto espaço de tempo, violou a Constituição em toda a Europa. Por isso dizemos que é um Governo fora-da-lei.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Cada vez mais. Vou dar dois exemplos.
A questão do emprego: o que nós hoje temos é um conjunto de subversões de conceitos, uma subversão permanente. O conceito de emprego está associado à estabilidade e à segurança, à conciliação entre a vida pessoal, familiar e profissional. Tudo isso, neste momento, está a ser subvertido. Porquê? Pela generalização da precariedade, pela antecâmara que esta constituiu na relação direta com o desemprego, pela redução dos salários e, já agora, por uma emigração forçada, particularmente dos jovens, para o exterior. Isto tudo numa lógica em que se diz que, mais do que emprego, é preciso ocupação. Não! As pessoas precisam de ter estabilidade de emprego para melhorar! Este é um exemplo concreto, mas não é o único.

Vejamos também o futuro do País: este País, com esta política e com a dependência crescente que tem do exterior, corre o risco de se tornar numa colónia, durante muitos anos, de alguns países da União Europeia. É preciso recuperar um conjunto de pressupostos que estavam nos ideais de Abril, em concreto na Constituição de Abril, que ainda se mantém, e afirmá-los efetivando-os.

Temos a questão do emprego, dos direitos fundamentais no acesso ao Serviço Nacional de Saúde, à educação e à escola pública de qualidade, à segurança social, universal e solidária, tudo isto está posto em causa e precisamos de o repor. Não há desenvolvimento humano se não se apostar nestas componentes.

Temos ainda uma terceira questão, que não é de somenos importância, e que é a questão da distribuição do rendimento, como sempre, entre o trabalho e o capital.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Acho que, acima de tudo, a revolução tem de passar pelas mentalidades. Mais importante do que um instrumento bé­lico é a consciência social e política das pessoas.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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