“Em verdadeira democracia não há deuses ou inimputáveis”

Herman José nasceu em Lisboa em 1954. Completou o liceu na Escola Alemã de Lisboa, em 1974. Humorista, ator e cantor, tornou-se conhecido do público com Sr. Feliz e Sr. Contente, em 1975, um número musical feito em parceria com Nicolau Breyner.Segura uma foto sua de 1974 (StevenGoverno/GLobal Imagens)
Herman José nasceu em Lisboa em 1954. Completou o liceu na Escola Alemã de Lisboa, em 1974. Humorista, ator e cantor, tornou-se conhecido do público com Sr. Feliz e Sr. Contente, em 1975, um número musical feito em parceria com Nicolau Breyner. Segura uma foto sua de 1974 (StevenGoverno/GLobal Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

A data apanhou-me a meio da minhas provas escritas de matemática do “Abitur” (exame final do liceu da Escola Alemã de Lisboa). Deu-me imenso jeito porque, na altura, já usava o meu tempo livre como músico semiprofissional, o que me deixava muito pouco tempo para estudos. Pude ficar em casa a preparar a matéria.

Qual foi a sua reação?

De grande alívio, assim que percebi que a revolução implicava a revogação da ordem que a PIDE me dera meses antes para sair do País, na sequência da minha opção pela cidadania alemã para não ter de cumprir o serviço militar.

Que episódio o marcou mais?

A mensagem televisiva do José Fialho Gouveia, que de alguma maneira nos transmitiu a sensação de que a revolução era à esquerda e não à direita, o que tornaria a situação muito mais explosiva e incontrolável.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

O marechal Spínola, cuja pose de Estado e experiência se revelaram essenciais para que o golpe não descambasse.

O que mudou na sua vida pessoal?

Mudou tudo. Estava inscrito na Hochschule für Film und Bild (escola superior de imagem e cinema) de Munique, já com bilhete de avião reservado e apartamento escolhido.

Por aqui fiquei, e semanas depois estava a gravar o Hino do Avante ao lado da Luísa Basto e a tocar viola-baixo no Força Força Companheiro Vasco, tudo isto a reboque do meu amigo e mentor, maestro Pedro Osório. Daí à minha estreia em teatro e televisão foi um pulo.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Sobretudo a liberdade de expressão e o fim da guerra colonial, que era o nosso maior fantasma.

E de negativo?

A destruição do tecido económico português, catástrofe da qual estamos ainda hoje a pagar juros. Se é um preço que vale a pena pagar? Respondo claramente que sim.

O que falta mudar?

Falta que os ares da mudança cheguem a certos órgãos de soberania, que mantêm ainda hoje assustadores tiques do Estado Novo.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Todo o sentido, quanto mais não seja para amenizar e esvaziar certas pulsões neoliberais, que só servem as grande fortunas. A meio é que está a virtude – também nos ideais e na economia.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

A revolução de que Portugal precisa é a de substituir esta espécie de “democracia parcial” por uma meritocracia feroz, que isole, puna e erradique todos aqueles que travam a evolução de Portugal e que usam os órgãos de soberania e/ou de comunicação para satisfação dos seus interesses. Em verdadeira democracia, não há deuses nem inimputáveis.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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