“O poder estava em boas mãos, não tinha caído na rua”

› Começou a trabalhar com 14 anos, numa fábrica de sapatos › Funda a primeira empresa em 1976, em Guimarães. Tinha  33 anos › Constitui, oito anos depois, o grupo Kyaia, que hoje detém a marca de sapatos Fly London e a Foreva › É presidente da APICCAPS  desde 1998 (Gonçalo Delgado/Global Imagens)
Fortunato Frederico começou a trabalhar com 14 anos, numa fábrica de sapatos. Funda a primeira empresa em 1976, em Guimarães. Tinha 33 anos. Constitui, oito anos depois, o grupo Kyaia, que hoje detém a marca de sapatos Fly London e a Foreva. É presidente da APICCAPS desde 1998 (Gonçalo Delgado/Global Imagens)

Onde estava no dia 25 de Abril?

Em casa, a dormir. Só quando ouvi os primeiros noticiários da manhã me apercebi de que qualquer coisa de anormal se passava. Durante o dia fui ouvindo as notícias na rádio e no fim do dia confirmei o que tinha acontecido. Era a Revolução dos Cravos, a revolução pacífica. O milagre de Fátima tinha acontecido!

Qual foi a sua reação?

Entusiasta, com uma grande sensação de liberdade. Era o cumprimento de um sonho, do poeta que tinha escrito “eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida, que sempre que um homem sonha o mundo pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança”.

Que episódio o marcou mais?

Quando na televisão, no noticiário da noite, apareceu a Junta de Salvação Nacional, fiquei mais sereno.
O poder estava em boas mãos, não tinha caído na rua.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

A imagem na televisão dos proscritos do poder que tinha caído e  Álvaro Cunhal e Mário Soares, recebidos com alegria e entusiasmo por multidões anónimas e populares que os aplaudiam.

O que mudou na sua vida pessoal?

Tudo. A alegria de viver, o entusiasmo por tudo o que se fazia. E ver toda a gente a tentar construir um Portugal melhor, independentemente do local ou partido em que estava. Foi um sonho lindo, infelizmente de pouca dura. Mas enquanto durou, valeu a pena.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Muita, muitíssima coisa: liberdade de expressão, melhor vida, excelente Serviço Nacional de Saúde, mais direitos. E ensino gratuito e universal, que permitiu que Portugal saísse da zona negra do obscurantismo.

E de negativo?

Uma maior e corrosiva desresponsabilização das pessoas inseridas numa sociedade que, a pouco e pouco, se tornou também refém dessa irresponsabilidade. Maior facilitismo nos costumes, uma descaracterização progressiva do ambiente familiar que tantos problemas hoje acarreta.

O que falta mudar?

Falta fomentar uma visão cultural e universalista do mundo onde estamos inseridos, o respeito por valores individuais e universais, uma cultura de responsabilidade antes da liberdade.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Sim, sempre. O idealismo puro dos primeiros tempos do 25 de Abril e os ideais da primeira hora devem ser cultivados com amor e carinho, porque foi um sonho bonito que só se tem uma vez na vida.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Se forem os que passam fome, os que querem trabalhar e não encontram trabalho, os que estão desempregados sem meios de subsistência mínimos, os doentes que não têm dinheiro para comprar remédios, os que não têm casa para se acolherem no fim da vida, os excluídos da sociedade, sim. Esses têm direito a exigi-la às elites que há séculos governam este País e que nunca foram capazes de o tornar num espaço inclusivo, com os valores da nossa tradição e costumes.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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