“Estava em medicina interna, mudei para saúde pública”

› Nasceu em Lisboa em 1947 › Completou o curso de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública em 1977 › Entre 1980 e 1991 foi funcionário da OMS › É diretor-geral de Saúde desde 2005 › Mostra no computador uma fotografia sua de 1974 (Steven Governo/Global Imagens)
Francisco George nasceu em Lisboa em 1947. Completou o curso de Saúde Pública na Escola Nacional de Saúde Pública em 1977. Entre 1980 e 1991 foi funcionário da OMS. É diretor-geral de Saúde desde 2005. Mostra no computador uma fotografia sua de 1974 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

Dormia, em casa. Era casado, tinha um filho. E às quatro e meia da manhã toca o telefone: era o meu pai, que também era médico, e que me diz num tom muito emocionado que tínhamos de ir para o hospital, uma vez que o MFA tinha emitido um comunicado e fazia um apelo para todos os médicos irem para os hospitais. E assim aconteceu, fui para o Hospital de Santa Marta, onde era médico. Antes de ir, tive o cuidado de avisar colegas meus para irem, mas também para dar a notícia de que havia um movimento e que, tudo indicava, era mais robusto do que tentativas anteriores. Desde o momento em que fui acordado até ao dia seguinte não deixei de ter um transístor comigo. Fui para o hospital, mas a certa altura, como não havia movimento de doentes, não resisti e fui ao Carmo. Assisti às manobras, lembro-me dos GNR deitados no chão, com espingardas apontadas, e da companhia de Salgueiro Maia a cercar o Carmo. São imagens que ficam para sempre.

Qual foi a sua reação?

Primeiro, de grande emoção, mas também de confiança, de esperança. Pela tarde, de grande alegria. Depois do Carmo, voltei a Santa Marta, para me juntar aos meus colegas, e onde nada se tinha passado em termos de urgências. Foi já em Santa Marta que ouvimos pela rádio o comunicado da rendição do Governo, recebido com grande emoção: estavam 20 médicos à volta de uma mesa, no Serviço 1 do Hospital de Santa Marta, e  todos se abraçavam e choravam. Foi uma situação absolutamente inesquecível.

Que episódio o marcou mais?

Que tenha observado e vivido diretamente, foi o Carmo. Mas, depois, vim a saber pormenores da evolução da situação, dos planos delineados e concretizados. E o episódio mais marcante, para muitos de nós, foi Salgueiro Maia na Ribeira das Naus, na Rua do Arsenal.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Salgueiro Maia. É provavelmente um dos maiores heróis da nossa história.

O que mudou na sua vida pessoal?

Na minha vida pessoal mudou tudo. Sobretudo o estilo de vida e a forma como se decidiu participar mais. A minha mulher era arquiteta e foi trabalhar para junto das câmaras municipais periurbanas, em habitações para operários, projetos que visavam criar melhores condições de vida para os trabalhadores, para os pobres. E eu, como médico, resolvi mudar de especialidade: estava em Medicina Interna, mudei para Saúde Pública e trabalhei muito tempo, até 1980, fora de Lisboa, no Baixo Alentejo.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Democracia, liberdade, mas sobretudo participação e a vontade de participar. E também, em termos de autoestima, um orgulho, um sentimento patriótico que provavelmente não existia antes. E, naturalmente, a descolonização.

E de negativo?

Foi tardio, apenas.

O que falta mudar?

Falta evoluir, progredir. Nem todos os sectores, departamentos do Estado, sectores da economia, da agricultura, da justiça, tiveram a evolução positiva que teve a saúde. Na saúde, ao longo destes 40 anos, tivemos resultados que colocaram Portugal, em termos de um conjunto de indicadores, nos lugares cimeiros a nível mundial.

Incomodam-me particularmente as questões ligadas à educação dos cidadãos, da nossa gente. É um problema que não ultrapassámos e que explica grande parte de todos os problemas que agora vivemos. O mesmo não aconteceu noutros países, como por exemplo na Suécia, que em período menor do que estes 40 anos deu grandes saltos em frente no sentido do desenvolvimento a partir da educação, com um processo educativo e de instrução pública levado muito a sério, com grande rigor e resultados. Infelizmente, não foi o nosso caso.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Fará sempre. Não faz sentido é voltar atrás, isso ninguém sequer admitiria. Mesmo para os jovens que estão mais longe da política, hoje  seria impossível viver em regimes como o que se viveu antes de 1974.

O que acha quando se diz  que Portugal precisa de uma nova revolução?

Essa questão, no fundo, traduz o sentimento ou o sentido de mudança para melhor que anima muitos de nós. Quem se exprime dessa forma está a desejar uma mudança mais profunda e estou certo de que no sentido, sempre, da justiça social.  Em termos genéricos, há muitas famílias que estão confrontadas com problemas, como os do desemprego, os da crise económica. Naturalmente, esses sentimentos têm de ser respeitados. Mas não é uma revolução que se avizinha.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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