“Podemos lutar contra aquilo que não nos agrada”

Sérgio Godinho nasceu no Porto em 1945. Sai de Portugal com 18 anos. Passa por Suíça, França e Canadá › Compositor e intérprete, estreou-se em disco em 1971 › Já trabalhou como ator, realizador e escritor › Segura uma imagem sua de 1974
Sérgio Godinho nasceu no Porto em 1945. Sai de Portugal com 18 anos. Passa por Suíça, França e Canadá. Compositor e intérprete, estreou-se em disco em 1971. Já trabalhou como ator, realizador e escritor. Segura uma imagem sua de 1974 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Estava em Vancôver, junto do oceano Pacífico, do outro lado do mundo. Estive nove anos fora de Portugal, em vários países. Primeiro, porque quis sair, conhecer mundo e ter vida, outra vida. Sou da cidade do Porto, vivi lá até aos 20 anos e havia coisas que me estavam a abafar. Não porque não gostasse do Porto, gostava muito, até do meu ambiente familiar. Mas saí e fiz–me à vida. E depois, como é evidente, acabei por ser chamado para o serviço militar/guerra e a partir daí passei a ser refratário. Estive em Vancôver nos dois anos antes do 25 de Abril.

Qual foi a sua reação?

Nesta altura não havia a internet, os telefonemas eram caros. Eu sabia o que tinha acontecido antes, no 16 de Março, e sabia que havia uma espécie de ala mais fascista dos militares que tinham ido fazer um preito de vassalagem ao Marcelo Caetano – a chamada brigada do reumático. E vi uma notícia no jornal que dizia “tanques ocuparam a praça central de Lisboa” e pensei que podia ser mesmo um golpe de extrema-direita, dos ultras. Na altura, só pensei “vamos lá ver o que vai acontecer” e não contactei sequer com ninguém de cá. A seguir, li outra notícia que falava dos prisioneiros políticos, os últimos tinham sido libertados de Caxias. E aí disse: “Alguma coisa se está a passar de muito sério e bom.” Só então falei com a minha família, com os meus pais, e eles explicaram-me a situação. Eu e a minha mulher de então, a Sheila, que era canadiana, já tínhamos uma viagem marcada para a Europa no princípio de maio. E vim com grande entusiasmo, porque o que se passava era uma coisa realmente formadora de um futuro em Portugal. Aterrei em Paris mas acabei por me informar se podia sair. E vim, estive em Portugal a cantar em vários sítios durante o mês de maio. Re-
gressei definitivamente ao País em setembro de 1974.

Que episódio o marcou mais?

O que me marcou mais foi o facto de poder testemunhar ao vivo, vindo de tão longe, um país diferente, que estava a viver uma alegria imensa e a concretizar uma ânsia de liberdade, que é a palavra fulcral do 25 de Abril. Eu tinha dois discos gravados, Os Sobreviventes e o Pré-Histórias, anteriores ao 25 de Abril, que foram editados cá, primeiro proibidos, depois permitidos. Mas a grande emoção para mim foi também poder cantar essas canções naqueles cantos livres, naqueles palcos em que estávamos todos à molhada, reencontrar os meus amigos e os meus companheiros de ofício no mesmo palco e as pessoas a cantarem essas canções porque as conheciam, Que força é essa ou Maré alta. Canções que foram conhecendo mas que eu nunca tinha tido oportunidade de cantar ao vivo, o que é uma situação… chamemos-lhe anormal. Nessa altura, havia muitas coisas anormais.

Qual é a figura que, na sua opinião, marcou o 25 de Abril?

O povo. É também disso que se faz uma revolução, uma revolução no sentido de uma mudança de sistema. Os heróis individuais não podem ser colocados num pedestal, porque não vão ficar sempre nesse pedestal. Houve gente importante, como é evidente, mas não podem ser lá colocados. O povo, sim, pode. Mas, por outro lado, é também o povo quem constrói o pedestal.

O que mudou na sua vida pessoal?

Mudou tudo. Eu sabia que algum dia havia de voltar, mas estava a viver outra vida. Embora estivesse a preparar o meu terceiro disco, a minha ligação com Portugal fazia-se sobretudo através de compor em português, de não perder essa referência da língua. E mudou tudo porque rapidamente percebi que não fazia sentido estar do outro lado do mundo, tinha de estar neste mundo. Foi, absolutamente, uma mudança de vida. Eu nunca tinha vivido em Lisboa e vim viver para Lisboa, o Porto já tinha cumprido… Mas volto lá com enorme prazer.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Trouxe a liberdade, a possibilidade de estarmos aqui a falar disso livremente. E, muitas vezes, o “livremente” é uma palavra que é preciso agarrar com unhas e dentes. Por isso é que eu digo que “a liberdade está a passar por aqui”, é uma forma de dizer “agarremo-la”. É que as pessoas interiorizam medos: neste momento, 40 anos passados do 25 de Abril, têm medo de falar, têm medo de se comprometer, porque há tanta precariedade. E muita gente nem tem emprego. Esse medo que se interioriza, eu acho que é preciso combater. O 25 de Abril trouxe essa noção da liberdade, mas em vários sectores, e trouxe iniciativas que muitas vezes nem foram concretizadas até ao fim. Mas deu uma outra perspetiva a um povo que estava completamente amarfanhado.

E de negativo?

Há sempre aspetos negativos numa mudança de regime porque as pessoas, às vezes, tomam a parte pelo todo, tornam-se donas de outra verdade. Houve muita gente que foi, com certeza, injustiçada, assim como houve um certo atabalhoamento na independência das colónias. Também houve muita impreparação, as pessoas funcionavam por instinto de algo que não conheciam, não tinham referência. Mas penso que, no todo, foi um acontecimento absolutamente fulcral. É uma data charneira.

O que falta mudar?

Falta mudar tanta coisa. Sobretudo, falta concretizar muita coisa. Para lá daquilo que está a acontecer neste momento, e que é bastante terrível – e isso, sim, é negativo mas já não é uma consequência do 25 de Abril – é uma consequência de um processo democrático que existe. Como eu digo, “só há liberdade a sério quando houver a paz, o pão, habitação, saúde, educação, a liberdade de mudar e decidir”. E, de facto, o poder é muitas vezes apanhado por pessoas que são impróprias para esse poder mas que são eleitas, não nos esqueçamos. Podemos lutar contra aquilo que não nos agrada. E falta sempre mudar muita coisa. Quando me perguntam se é infelizmente que certas canções minhas estão muito atuais, eu digo que não é infelizmente, nem deixa de ser. Não há sociedades perfeitas, essas canções terão sempre outros significados.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Faz todo o sentido. Não podemos esquecer esses valores e devemos praticá-los, mas não de uma maneira mística, de uma maneira quotidiana, cívica. Temos de os praticar e lutar por eles. Depressa se resvala para um conformismo. Não vai haver, neste momento, uma ditadura em Portugal, mas a questão é mais subtil do que essa. Há formas de impor coisas que são contra o interesse, quanto a mim, de Portugal. E isso é que está a acontecer a todo o momento.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

A revolução é uma coisa utópica. Dizer isso é um pouco uma maneira de não resolver nada. O que é preciso é, quotidianamente, transformar o que está mal. Quando ouvi certas afirmações de protagonistas do 25 de Abril, como as de Otelo Saraiva de Carvalho dizendo que com 700 homens fazia uma nova revolução, acho isso lamentável. Não é assim que as coisas se resolvem. É preciso uma revolução permanente de ideias também, de atitudes e de comportamentos.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

 

Bookmark and Share