“Senti-me na obrigação de intervir politicamente”

Alberto João Jardim nasceu no Funchal em 1943. Licenciado em Direito, foi professor do ensino técnico e secundário. Foi diretor do diário Jornal da Madeira. Cofundador na Madeira do PSD. Presidente do Governo regional da Madeira desde 1978

Onde é que estava no 25 de Abril?

Estava a dormir.

Qual foi a sua reação?

Pouco depois das seis da manhã, o falecido  engenheiro Perry Vidal, que depois foi meu colega no Governo Regional da Madeira, telefonou–me a dizer que havia uma revolução em Lisboa. Perguntei-lhe de quem se tratava.

“Do Spínola e do Costa Gomes, parece”, disse ele. Respondi: “Então deixa-os fazer”, e fui dormir até às oito horas. Levantei-me e fui dar as minhas aulas à então Escola Industrial e Comercial do Funchal.

Que episódio o marcou mais?

O primeiro 1.º de Maio. Até esse dia, à distância que vivia do continente e com as comunicações de então, alimentei a esperança de que se tratava de uma revolução para conduzir normal e pacificamente Portugal ao modelo político das democracias ocidentais. Era isso que eu lera no Portugal e o Futuro do então general António de Spínola e era isso que constava do Programa do Movimento das Forças Armadas, que depois foi defraudado e o povo português enganado.

Mas quando vi a manifestação desse primeiro 1.º de Maio, o frentismo desastroso com forças totalitárias, os slogans  idiotas aí gritados, bem como marinheiros e soldados fardados a manifestar-se no seio da multidão, que é antítese de povo soberano, logo vi que Portugal iria passar um muito mau bocado. Como passou. E ainda hoje se repercute nas nossas vidas.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

António de Spínola. No idealismo, na coerência e no trágico.

O que mudou na sua vida pessoal?

Face ao caminho que as coisas passaram a levar, senti-me na obrigação de intervir politicamente. Tinha 31 anos. Com outras quatro pessoas, em maio de 74, fundei o movimento autonomista Frente Centrista da Madeira. A revolução constituía a grande oportunidade emancipalista para a Madeira se libertar de uma estrutura centralista, também de índole colonial. E apresentámos o primeiro manifesto público programático de autonomia, semelhante ao dos estados federados norte-americanos.

Em agosto de 1974, por deliberação de uma assembleia de todos os que até então tinham aderido à Frente, esta dissolveu-se para, em acordo assinado com o PPD nacional, passar a ser o PPD-Madeira, dotado de autonomia partidária.

O PSD-Madeira nasce de uma relação contratual então estabelecida com o PSD nacional.

Ao entrar para a política ativa, tudo se alterou na minha vida pessoal. No mesmo ano de 1974, em outubro, passei a diretor do Jornal da Madeira, de onde saí no dia em que tomei posse como presidente do Governo regional, a 17 de março de 1978.

O resto do filme é do domínio público.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Trouxe a liberdade. Permitiu a democracia, trouxe as autonomias políticas insulares,trouxe melhor qualidade de vida: desde a cultura ao consumo, passando pela educação, saúde e equipamentos sociais. E trouxe alguma consciência dos direitos e do primado da pessoa humana.

E de negativo?

Trouxe um regime político-constitucional não referendado pelo povo soberano, um misto logicamente ineficaz de marxismo, liberalismo e corporativismo, responsável pela situação em que nos encontramos.

Sendo hoje os principais partidos, forças sindicais e patronais, todos situacionistas – porque instalados – daí a fraude de a chamada e não desejada reforma do Estado não se fazer através da única via possível, a da revisão constitucional. E tudo isto a ser disfarçado através de “manifestações” inócuas na praça pública, pagando o povo português uma série de instituições públicas, inúteis ou mesmo nocivas.

O regime político substituiu a democracia pela partidocracia e, nos últimos decénios, até por uma certa plutocracia, com a força que vêm ganhando as “sociedades secretas”.

A descolonização desenvolveu-se desastradamente e ainda hoje com encargos inadmissíveis para o Estado português.

A autonomia política é imposta e não a pretendida pelo povo  madeirense.

A nossa intervenção na União Europeia vem sendo demasiado acomodatícia desde o início.

Não foi feita a regionalização necessária do continente e, mesmo em relação ao poder local, o Estado vem evoluindo para um maior e inadmissível centralismo.

O relativismo vem destruindo valores da cultura e civilização portuguesa, deixou-se politizar a justiça, hoje também impeditiva da celeridade administrativa e desenvolvimento económico.

A comunicação social está nas mãos da plutocracia, é facciosa e medíocre.

O que falta mudar?

É preciso mudar, prioritariamente, tudo o que referi na resposta anterior.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Hoje, faz ainda mais sentido, dado o estado dececionante a que Portugal chegou, comparativamente à esperança viável que Abril de 74 trouxe.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Portugal precisa de uma nova revolução, visto estar ocupado pelo poder dos interesses dominantes instalados, alguns destes sob capa de “esquerda”, e assim ser impossibilitada qualquer reforma do Estado apontada a uma maior justiça social. Estou ao dispor.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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