“Viver uma revolução na adolescência foi um luxo”

João Mário Grilo2
João Mário Grilo nasceu na Figueira da Foz em 1958. Licenciou-se em Sociologia e é doutorado em Ciências da Comunicação. Professor catedrático, realizador desde a década de 1970, foi premiado pelo filme A Estrangeira. A fotografia recente foi tirada no Largo do Carmo, em Lisboa. Fotografia antiga tirada na rodagem de um filme. (Gustavo Bom/Global Imagens)

Onde estava no 25 de Abril?

Estava na Figueira da Foz. Mais precisamente, no Liceu da Figueira, onde estudava. Lembro–me, quando a notícia se soube (o que aconteceu relativamente tarde, não antes das 11 da manhã), de se ter juntado muita gente na entrada, muita dela sem perceber bem o que se passava, a tal ponto o regime tinha construído à sua volta uma aura de eternidade.

Qual foi a sua reação?

Eu estava em plena adolescência, portanto tudo aquilo era um boost enorme, completamente ajustado ao biorritmo da gente da minha idade. Paradoxalmente, talvez tenha sido entre nós que melhor e mais instantaneamente se absorveram as energias do momento. Mesmo que não se tenha compreendido imediatamente e completamente o alcance da coisa. Mas foi, de alto a baixo, um momento absolutamente galvanizante e determinante na formação da minha consciência.

Que episódio o marcou mais?

Na província, o dia 25 de abril foi muito a televisão e os jornais. E a necessidade urgente de informação. Há essa imagem paradigmática da Junta de Salvação Nacional na televisão, da chaimite a sair do Carmo com o Marcello lá dentro, dos presos a sair de Caxias. Mas o que recordo mais é mesmo tudo isso na televisão. Ainda a preto e branco, como se sabe.

Qual é a figura que na sua opinião marcou  o 25 de Abril?

Não há propriamente uma figura, mas uma galeria. Desde logo, os chefes, que deram um rosto à revolução, com adereços ou traços bem marcados: o monóculo do Spínola, os óculos escuros do Costa Gomes, a boina do Otelo, o cabelo e as sobrancelhas de Álvaro Cunhal, o nariz de Sá Carneiro, o baby facing de Mário Soares, depois Vasco Gonçalves, Rosa Coutinho… Eram personagens que quase ninguém conhecia, mas cuja iconografia se implantou muito bem e muito rapidamente. O 25 de Abril foi, em Portugal, uma explosão iconográfica, num país parco de imagens: os cartazes, os emblemas trazidos pelas trupes folclóricas soviéticas, o Deep Throat, o guevarismo, por fim, com Duran Clemente ou César de Oliveira, que acabaria por ser meu professor no ISCTE.

O que mudou na sua vida pessoal?

Mudou tudo. A liberdade muda tudo, não é? E Portugal foi, pelo menos durante dois anos, um país livre e até  libertino. Viver uma revolução na Europa em plena adolescência foi um luxo. Mas na altura, e pelas razões que já disse, tudo parecia natural. Era a liberdade a que qualquer adolescente aspira. Tentei explicar isso a mim mesmo no meu primeiro filme, que fiz aos 18 anos, sobre a minha família. Era um filme em Super 8, mas com 90 minutos. Um projeto perplexo, libertário. Mas se o pude fazer, de­vo-o ao 25 de Abril. Na altura, havia uma comissão no Instituto Português de Cinema que tinha gente corporativa, das profissões, dos sindicatos, etc. Mas também havia outras pessoas. Sei que os “profissionais” recusaram o projeto porque, diziam, o IPC não podia financiar o “cinema amador”. Mas a Sophia, que fazia parte dessa comissão – e que é, para mim, uma das grandes figuras secretas de Abril, como  o Jorge de Sena –, disse que se o projeto não passasse ela abandonava. E foi assim. Que eu saiba, foi o único filme alguma vez financiado a título de “filme experimental”. Já estávamos em 1977, um pouco a lamber as feridas, e havia gente a deitar muita água nas fogueiras. Mas o País ainda mexia.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A liberdade, claro, uma cena brutal. Mesmo para um tipo algo depressivo como eu. Era impossível não ser apanhado por isso. E “isso” era o movimento, um movimento de dentro, o movimento de um País a respirar a sua própria respiração. É uma coisa única.

E de negativo?

Não houve nada de negativo no 25 de Abril. Absolutamente nada.

O que falta mudar?

Para as “gerações de Abril”, se alguma lição se aprendeu, foi mesmo que o que tem de acontecer acontecerá sempre. E a mim, particularmente, o 25 de Abril (e logo depois o 1.º de Maio) criou-me um grande respeito pelas energias coletivas e o modo como, independentemente dos poderes, são elas sempre, em última instância, que farão a história. O Spínola, por exemplo, interrompia muitas vezes os discursos para dizer que “o povo era sereno”. Talvez por ter visto tantas vezes o abismo à frente…

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Sim, claro, faz muito sentido falar dos ideais de Abril. Pelo presente e pelo futuro, mas também por haver imagens e memórias tão boas e tão raras que nos chegam com isso. Em particular, com a liberdade, há dois novos dados estruturantes da modernidade de Portugal: o fim da censura e o direito público à experimentação e à experiência. Essas são duas realidades já inscritas no ADN da sociedade portuguesa.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Acho que há revoluções que estão a fazer-se todos os dias: nos modos de vida, na ciência, na cultura, e que são derivados naturais desse direito à experiência. A revolução não é um “cataclismo” para as primeiras páginas dos jornais, é uma força que se opõe à hegemonia. Algumas vezes vê-se, outras nem tanto. Mas não é por isso que não para de acontecer.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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