“Ideais de Abril são hoje uma Constituição de um povo livre”

› Nasceu no Porto, em 1938 › Cursou Teologia e depois Filosofia, na Universidade do Porto, onde foi professor › Em 2001, foi nomeado bispo das Forças Armadas. Resignou em 2013 ( Steven Governo / Global Imagens )
Januário Torgal Ferreira nasceu no Porto, em 1938.  Cursou Teologia e depois Filosofia, na Universidade do Porto, onde foi professor. Em 2001, foi nomeado bispo das Forças Armadas. Resignou em 2013 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde estava no 25 de Abril?

Vivia numa casa da diocese do Porto, em frente ao Palácio de Cristal, e sou surpreendido pela notícia cerca das dez da manhã. Já me tinha levantado, infelizmente, para atender um telefonema em que me era noticiada a morte de uma pessoa amiga, a cujo enterro fui no dia 26. E estava a ultimar a preparação de uma aula da cadeira que regia, cultura clássica. Quis quase o destino, passe a palavra destino que não existe, que fosse dar nessa última aula – só voltámos a ter aulas em janeiro, depois do 25 de Abril – sobre conceções de história para a cultura grega. E eu não sabia que estava a viver um dia histórico. Um colega meu, padre, bate-me à porta e diz: “Há uma revolução.” Perguntei se estava a brincar comigo, e ele, que tinha na estrutura paroquial um jardim de infância, responde: “A prova é que vieram mães e pais a correr buscar os meninos, foi por eles que soube que há uma revolução em Lisboa.”

Qual foi a sua reação?

Sei hora a hora, quase minuto a minuto, esse dia. À uma dei essa aula, vim para o edifício onde funcionavam as Letras da Universidade do Porto, que hoje é das Ciências Biomédicas. No salão, estavam cinco ou seis alunos. A certa altura, achei que o silêncio era de pavor e não conseguia disfarçar a emoção e o desejo de saber o que se passava. Perguntei aos alunos, não sabiam. Fomos apanhados pelo medo naquele casarão, um silêncio imenso. “O melhor é irmos lá para fora e oxalá que vamos festejar, porque pode ser uma revolução no mau sentido.” Fui para casa e, como vivi um certo tempo em Paris, lembrei-me de ligar o rádio na France Inter, que eu tinha a certeza que noticiava a política mundial. E oiço falar o Dr. Mário Soares. A pergunta era se sabia o sentido daquele golpe, ele responde: “As poucas informações de que disponho dizem-me que não é um golpe de direita.” Isso deu-me garantias, fez do dia uma festa. Foi um dos dias mais felizes da minha vida, senti uma alegria incontida, que até ali tinha sido incomodada por uma dupla dúvida: se se tratava de uma inventona e, por outro lado, de que sector brotaria aquele golpe. Felizmente, a dúvida foi solucionada por aquele que mais tarde viria a ser um dos primeiros-ministros de Portugal e um dos maiores políticos que o País tem conhecido, gostem ou não gostem dele. Eu gosto.

Que episódio o marcou mais?

O uníssono da opinião pública portuguesa, a espontaneidade do povo liberto. A emoção de quem festejava o “sair da prisão” mas com desconfiança: “Será mesmo o encerrar da ditadura?” Ao mesmo tempo, sentia um duplo fenómeno: a falta de elasticidade para participar num fenómeno pluralista como o democrático, porque as pessoas não estavam habituadas, e o pouco à-vontade em expressarem-se com convicção sentida. Quem nunca teve uma atitude política perante o regime deposto ou, infelizmente, com ele estava de acordo, sofreu de amargura nesse dia e subsequentes. Muitos começaram a olhar para os partidos e foram enfiar-se naqueles mais à direita, como quem busca uma sombra tutelar.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Uma figura coletiva: o conjunto de resistentes que por longuíssimos anos se opôs, das mais diversas maneiras, à brutalidade do regime. Tiveram sempre razão. E os bem-pensantes, os detentores da virtude e da verdade, sempre encontraram nesses resistentes o motivo para os atacar como vendilhões da pátria. Exagerou-se, é certo, o critério do antifascismo; mas chegados a um ciclo da história onde se descobre que, afinal de contas, os traidores de ontem são os heróis da verdade política, não me admira. O reacionarismo que se manifestou antes, para mim, é que foi terrível.

O que mudou na sua vida pessoal?

Do ponto de vista pessoal, aprofundaram-se convicções e responsabilidades, com prioridade para a fidelidade aos direitos do ser humano, tema que me foi sempre muito caro. Por outro lado, aprofundou-se em mim a defesa da liberdade da consciência e a oposição àqueles que faziam da opinião um delito. E cresceu em mim o grande arrepio diante do fosso entre os ricos e os pobres. Esse arrepio continua.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Que o primeiro dever de uma sociedade humana seja restituir aos mais pobres a sua dignidade ferida, mesmo no caso de eles poderem ter sido responsáveis das suas desditas. É inegável que o primeiro dever de uma sociedade humana é defender os mais pobres. Os avanços no sector da saúde, da educação e da segurança social são indiscutíveis desde essa data, ainda que muita gente hoje feche os olhos e aos ouvidos não lhes convém. Mas para mim, o maior avanço é o de se ter encontrado, muito mais do que em qualquer situação histórica, a certeza de que o elemento mobilizador provém daquilo que falta à sociedade. A grande lição do 25 de Abril, enquanto corajosa rutura com a ditadura, é a certeza de que a democracia é um chamamento histórico em cada momento à responsabilidade de cada cidadão: enquanto houver oprimidos e excluídos, enquanto os chamados grandes do mundo prosseguirem a loucura da exploração, haja quem os desarme e detenha. Estamos a realizar Abril.

E de negativo?

O desregulamento da dívida pública e privada, a insensibilidade social, o desemprego avassalador, a miséria dos mais pobres, a utilização de nomenclaturas como “os que ficaram para trás”, “os mais débeis”, “os mais vulneráveis”, em vez de dizerem “os mais pobres” ou “os mais miseráveis”. E as novas linguagens das zonas de conforto ou desconforto, repetindo sem pensar ou pensar para repetir. Esta é a tragédia do situacionismo, não do 25 de Abril. O negativo não é devido a Abril, mas a muita gente que se serviu de Abril ou esteve a servir o País em nome de Abril, mas a quem os ideais da rutura nunca inflamaram e inspiraram. É a tragédia de quem se acomodou. Todos os partidos deviam ter a simplicidade e a inteligência para aceitar que são corresponsáveis deste desmando geral. Pelos vistos, para o arco governativo, o único traidor é Sócrates, é isso que tenho ouvido!
O deserto de ideias para a mudança, o medo de consensos, o desânimo, a revolta, a tristeza nacional, o finis patrie, tudo isto veio depois de Abril, mas são traições de Abril. Negativo foi o facto de não termos tido estruturas partidárias e pessoas que tenham sido fiéis.

O que falta mudar?

Compreendo que o desânimo é mau conselheiro, mas sou obrigado a assinalar que a desconfiança, ou falta de confiança nos decisores e nos escolhidos como servidores do bem comum. É uma espécie de luto pela democracia, que não morrerá mas está hoje gravemente doente. Não deveríamos fazer das próximas eleições uma mudança da nossa exigência cívica junto dos políticos, uma mudança na nossa comparência às urnas, indo com a mesma expectativa e alegria que eu senti naquelas primeiras eleições em 1975? A democracia é um exercício de cidadania, do poder dizer que quero fulano, que perdi ou ganhei, mas fui votar. Nesta altura, a grande mudança seria as pessoas darem um sinal de que vão votar. E antes disso, que vão à campanha, questionem os senhores que vão às eleições europeias. A opinião pública vira-se contra estes cargos e pessoas como sendo uma espécie de universidade de inúteis. Não é esta mentalidade que tem de ser mudada, esta confiança que tem de ser reganhada?

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Só quem se sente incomodado ao ouvir falar em direitos humanos, exercício da democracia, justiça social, na miséria, no desemprego, no desfasamento de classes, na promoção de cada mulher e cada homem, esses julgam que os ideais de Abril já fizeram o seu tempo. Os ideais de Abril são hoje uma Constituição de um povo livre.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Talvez de uma revolução nova. Curar a democracia de tanto bolor antidemocrático é fazer em 2014 a revolução de 1974. A história não se repete, mas com outras indumentárias, a moda do 25 de Abril de 74 tem de ter lugar. Até porque é a mesma, em todas as estações.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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