“Foi o começo do uso da palavra na minha veia musical”

Rui Reininho, vocalista da banda GNR
Rui Reininho nasceu no Porto em 1955. Começou a carreira na música em 1977. Estudou Cinema. Em 1981 torna-se vocalista dos GNR. Desde então é a figura mais destacada da banda. Já gravou mais de 12 álbuns e escreveu mais de 200 canções. Segura uma fotografia sua de 1974 (Tiago Salgueiro/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

Eu estava muito bem na caminha, a faltar ao primeiro tempo das aulas do secundário…

Qual foi a sua reação?

Quando cheguei ao Liceu António Nobre e não havia aulas, comentei que o golpe militar com o então general Spínola à cabeça só poderia ser uma manobra de extrema-direita, pelo que decidi apressar a minha fuga para a Bélgica, onde já estava a tratar do exílio.

Que episódio o marcou mais?

O cerco e tomada da PIDE/DGS pelas forças populares, na vizinhança do Cemitério Prado do Repouso [no Porto], a escassos cinco minutos da casa dos meus pais.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

O modo mediático e prático como o Dr. Mário Soares se apropriou da revolta foi fantástico.

O que mudou na sua vida pessoal?

Acabou o meu desejo de faltar à incorporação nas Forças Armadas, alargando os contingentes nas colónias. Começou uma senda inspiradora de ação de rua, que era clandestina e intramuros, e foi o começo do uso da palavra na minha veia musical.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Foi tudo positivo. Mesmo o aparecimento de algumas doenças e mal-estar psíquico.

E de negativo?

Houve uma certa brandura de costumes, que ainda hoje permite a recrudescência e a arrogância da banca e dos oportunistas vigentes.

O que falta mudar?

O verdadeiro paradigma de liberdade e democracia, em vez do apregoado economicismo.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Sim. E de civilização e evolução.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Eles acham que o verdadeiro dever do revolucionário é fazer a (sua, deles, nossa ) revolução. E quem sou eu para discordar?

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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