“Em vez de riqueza, só nos sobejam dívidas para redistribuir”

Henrique Medina Carreira nasceu em Bissau, em 1931. Estudou Engenharia Mecânica e, posteriormente, licenciou-se em Direito. Não terminou o curso de Economia. Foi subsecretário de Estado do Orçamento e ministro das Finanças. Ao lado, surge numa foto na década de 70 (Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Em Lisboa. Depois do golpe das Caldas da Rainha, o então secretário de Estado da Educação, Augusto de Ataíde, confidenciou ao meu amigo João Ataíde que se preparava uma revolução, não um golpe de Estado. Cerca das seis da manhã de 25 de abril, este meu amigo telefonou-me a anunciar que eclodira a revolução e a sugerir que escutasse a emissão do RCP. Assim fiz e ouvi o jornalista Joaquim Furtado ler um comunicado das Forças Armadas. Chegara, finalmente, o dia que há muito desejávamos.

Qual foi a sua reação?

Confirmada a Revolução, saí para a rua. Morando junto do Governo Militar de Lisboa, e receando uma reação de força por parte do Governo, fiquei a deambular na zona de São Sebastião.

Que episódio o marcou mais?

Fixei um episódio muito simples. Havia uns três ou quatro soldados em cada esquina. Dirigi-me a um dos grupos e perguntei se estavam “com” o general Spínola. Só sabiam que o “nosso” capitão os mandara para ali!

Qual figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Aquela que, por motivos vários, ninguém pode esquecer: o capitão Salgueiro Maia.

O que mudou na sua vida pessoal?

Suspendi o exercício das atividades profissionais entre outubro de 1974 e janeiro de 1978. Primeiro, para o exercício de funções no BIP [Banco Intercontinental Português], em que o Estado interviera para evitar a sua falência. Depois, para o desempenho do cargo de subsecretário de Estado do Orçamento e de ministro das Finanças. Não tive mais interrupções.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Sem dúvida, a democracia. Com ela fizemos coisas boas e outras más. A criação do Serviço Nacional de Saúde foi muito positiva. A essencial massificação dos ensinos básico e secundário é um desastre.

E de negativo?

Avultam os erros políticos que fizeram “falir”o Estado. Como era previsível – e foi previsto com larga antecedência –, caminhava-se para a “bancarrota”. Gerou–se, assim, a atual e dramática crise que vai condicionar, negativa e duradouramente, o futuro do nosso país. Este colapso não foi obra da democracia, antes de atos e de omissões da responsabilidade de diversos dos seus agentes.

O que falta mudar?

Urgentemente, os principais partidos políticos. Desacreditados e desqualificados como estão, não vislumbro a concretização, em tempo útil, de soluções essenciais para os nossos problemas. Pelo contrário.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Pretendia-se descolonizar, democratizar e desenvolver. Nas difíceis circunstâncias que vigoravam, descolonizou-se com os menores danos possíveis. Democratizou-se depressa, mas criou-se um sistema político fechado, cada vez menos representativo e, cada vez mais, perigosamente inoperante. O desenvolvimento tornou-se uma distante miragem, porque criámos um aparelho produtivo empobrecedor e não corrigimos os fatores indispensáveis à obtenção de ganhos de competitividade. Em suma: precisamos de mudar a democracia se quisermos mudar o nosso futuro.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

No atual contexto, não creio que a revolução seja o caminho aconselhável. Na verdade, em vez de riqueza, só nos sobejam dívidas para redistribuir!

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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