“A seguir ao 25 de Abril fizeram-se coisas disparatadas”

 (Gonçalo Villaverde/Global Imagens)
Nicolau Breyner nasceu em Serpa, em 1940. Estudou teatro no Conservatório Nacional. Nicolau Breyner é um reconhecido ator, produtor e realizador. Segura uma fotografia de 29 de abril de 74, numa reunião de atores no Parque Mayer, ao lado de Francisco Nicholson e Rui Mendes (Gonçalo Villaverde/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Estava completamente bêbedo. Tinha tido um aniversário, um jantar enorme no Parque Mayer, e fui para casa às seis da manhã. Lembro-me de subir a Fontes Pereira de Melo e ver um enorme aparato na Avenida António Augusto Aguiar, os tanques, e pensar que era uma operação stop. É que naquela altura ainda podia conduzir assim, naquele estado. E fui para casa dormir. Começam a ligar-me amigos, de manhã, e acabei por ir para o Chiado. Fui para um café chamado Ibéria assistir depois àquilo tudo.

Qual foi a sua reação?

Foi a da maior parte dos portugueses: ainda bem que vamos acabar com a ditadura, com uma guerra que se prolonga, vamos ter liberdade de expressão e de imprensa. Se bem que  a seguir ao 25 de Abril fizeram-se umas coisas muito disparatadas. Mas fiquei muito feliz.

Que episódio o marcou mais?

A alegria das pessoas na rua, horas antes de Salgueiro Maia chegar ao Carmo. Assistir à movimentação das pessoas, à esperança de que tudo mudasse.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Houve várias pessoas, não foi uma só. E ao capitão Salgueiro Maia não foram dispensadas todas as honras que merecia.

O que mudou na sua vida pessoal?

Nada. Claro que, para um ator, é importante deixar de haver censura. E o ensaio de censura, que era uma coisa muito divertida. Lembro–me da minha querida Laura Alves dizer “vamos enganá-los”, fingíamos que ainda não sabíamos o texto, havia ali uns tropeções, e quando recomeçávamos a peça era sempre três ou quatro frases mais à frente do ponto onde tínhamos parado. Divertia-me muito, naquela altura ainda havia contacto entre as pessoas, havia tertúlias, encontros nos cafés, as pessoas olhavam-se nos olhos quando falavam. Isso foi algo que se foi perdendo, não necessariamente por causa do 25 de Abril. E depois, quando houve o recolher obrigatório, também foi muito divertido: se não saíamos da discoteca até à meia-noite tínhamos de ficar até às seis da manhã.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

O lado positivo é o da liberdade, que é fundamental: a liberdade de discussão, de pensamento, de expressão. Quanto ao resto, o 25 de Abril foi mal aproveitado. Após o fascismo, houve quase uma ditadura comunista  e durante muitos anos havia uma lista de pessoas, em todas as áreas, que não eram chamadas para trabalhar porque não eram afetas ao regime. Foi o meu caso, estive sete anos sem filmar. A pessoa que quebrou esse anátema foi o Luís Galvão Teles, que voltou a chamar-me. Eu tenho muito respeito pelo ideal comunista, mas não tenho muita fé no ser humano. Foram os maus comunistas que estragaram os ideais comunistas.

E de negativo?

Trouxe uma grande confusão, até pela tentativa de instaurar uma ditadura de esquerda. Houve uma certa selvajaria na forma como se fizeram as coisas. Na agricultura, por exemplo, fizeram-se disparates, houve latifúndios transformados em minifúndios e onde se colocavam culturas que só eram rentáveis nos latifúndios. Mas não estou a acusar o 25 de Abril. Fui dos que o aplaudiram, pela abertura de mentalidades que trouxe e pelas mudanças no acesso à cultura.

O que falta mudar?

Não sei se há que mudar. Há que melhorar. Há que ter uma justiça mais atuante, a distribuição de riqueza ainda não é a que devia ser, há muita pobreza e pouca solidariedade. Estamos muito alicerçados no Estado, tem de ser o Estado a fazer. Mas o Estado somos nós! Gosto muito de Portugal e tenho um imenso orgulho em ser português, mas hoje não estamos nas melhores condições. Somos forçados a emigrar e mesmo no resto do mundo a situação não é brilhante. Gostava que houvesse condições para que os portugueses pudessem ficar cá. Pode ser utópico, mas da utopia podem nascer muitas coisas.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Os ideais são uma faca de dois gumes: não são eternos, porque as mentalidades mudam, as prioridades também mudam e os ideais têm de acompanhar. Só não podem mudar os ideais de solidariedade e amor ao próximo.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Um total e absoluto disparate dito por extremistas. Era o que mais faltava agora, uma nova Albânia aqui em Portugal. É preciso ver o sentido prático das coisas.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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