“Na democracia de abril havia presunção de perigosidade e de culpa”

Jaime Nogueira Pinto nasceu no Porto em 1946. Licenciou-se em Direito e é doutorado em Ciências Sociais. Professor universitário, foi administrador da Bertrand e diretor de ‘O Século’. Segura foto com a mulher, Maria José Nogueira Pinto, em Angola no verão de 74. (Steven Governo/Global Imagens)
Jaime Nogueira Pinto nasceu no Porto em 1946. Licenciou-se em Direito e é doutorado em Ciências Sociais. Professor universitário, foi administrador da Bertrand e diretor de ‘O Século’. Segura foto com a mulher, Maria José Nogueira Pinto, em Angola no verão de 74. (Steven Governo/Global Imagens)

Onde estava no 25 de Abril?

Estava em Lisboa, apresentado no Estado-Maior do Exército. A aguardar embarque para Angola, para onde me tinha oferecido.

Qual foi a sua reação?

Reagir! Os comunicados ambíguos do MFA, a desconexão e desorganização das forças do Governo lembraram-me as narrativas do 5 de Outubro. O regime caía de maduro, para não dizer de podre.

Que episódio o marcou mais?

À tarde fui, como os ‘mirones’, ver o que se estava a passar na Baixa. Lembro-me de um tanque a descer a Rua Garret. E depois, na Rua Nova do Almada, gente a partir as montras de um minimercado e a roubar coisas. Democracia à portuguesa. Também achei curioso – e vergonhoso – ver os locutores da RTP que, na véspera, glorificavam Tomás e Caetano, a ler com renovado zelo e satisfação as notícias do dia..

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Marcelo Caetano.

O que mudou na sua vida pessoal?

Tudo. Ao contrário de muitos neodemocratas, não era partidário ou ligado ao regime que caía, mas estava contra aquilo que chegava. A esquerda, justamente ressentida de 48 anos de fascismo, trazia todo um programa de socialismo experimental e de descolonização de qualquer modo e a qualquer preço. Eu estava nas listas de proscritos e se, nos primeiros meses, o facto de embarcar para Angola me poupou, no 28 de Setembro foram prender-me. Andei 2400 quilómetros até ao Sudoeste Africano. Na democracia de Abril havia presunção de perigosidade e de culpa.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Pessoalmente, deu-me a possibilidade de testar a minha coerência e de pagar pelas minhas convicções. Saí como desertor (entrei em deserção no dia 15 de Outubro de 1974, dia do cessar-fogo em Angola). Vivi quatro anos exilado com a família e sobrevivi sem negar nem renegar nada, e sem aceitar facilidades do novo regime. Acabei por ser julgado e absolvido no Tribunal Militar de Santa Clara. Pude pôr à prova, com a Zezinha (Maria José Nogueira Pinto), a nossa ligação, o nosso casamento, na dificuldade e no risco. Conheci o valor dos amigos certos nos tempos incertos. E recomecei a vida. Como experiência, não é pouco.

E de negativo?

O regime de Salazar não tinha continuidade sem Salazar. Escrevi um livro – que vou agora reeditar – a culpar Marcelo Caetano pelo fim do regime, mas hoje reconheço que é quase como culpar o ministro da Agricultura pelo sol e pela chuva.

O mais negativo do 25 de Abril foi a obsessão dos MFAs e dos “antifascistas” que lhes vieram agarrados às botas de fazerem tudo ao contrário do que o Estado Novo tinha feito; e de acharem, também por ignorância, que coisas que faziam parte da tradição política, da História e da essência de Portugal, eram mania e teimosia de Salazar. Daí a descolonização que fizeram, daí as experimentações económico-sociais. E daí aquela indigência do PREC.

O que falta mudar?

O que devia mudar e não se muda, nem em democracia nem em regime nenhum: a cabeça de algumas pessoas, desta classe político-burocrático-empresarial de gente medíocre e habilidosa, ora espertalhona, engraçada e brincalhona, ora séria, empertigada e solene. É essa a grande força de bloqueio, a burguesia ‘aparatchique’ de serviços e concertos, adaptada e adaptável a tudo, que por aí anda e manda – nos partidos, nos media, nas universidades.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Quarenta anos depois, é melhor julgá-los pelos resultados.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Portugal teve uma revolução liberal no século XIX, a reboque das invasões francesas, dos aliados ingleses, das ideias da Europa constitucional, uma revolução que acabou com o poder político e económico da Igreja e limitou o poder da Coroa. Os republicanos não trouxeram revolução nenhuma, só a marginalização da Igreja e a balbúrdia nas ruas. O 28 de Maio foi uma reação nacionalista e autoritária, que, depois de pôr ordem nas ruas, trouxe Salazar, que arrumou as finanças, fez obras públicas, aguentou a neutralidade na Segunda Guerra e o Império – mas que também não revolucionou coisa nenhuma.
A única revolução que valia a pena era a dos “espíritos”, a das cabeças. De qualquer forma, as outras, também não haveria quem as fizesse. Até porque, com o regime que o 25 de Abril inaugurou, o agente moderno das revoluções – o Exército – deixou de ter importância política. Portugal precisa de imaginação, trabalho, responsabilidade. E que quem mande seja patriota, honesto, tenha alguma inteligência, sentido do bem público, senso comum e humildade.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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