“A situação em que vivemos é demasiado insuportável”

Jorge Silva Melo
Jorge Silva Melo nasceu em Lisboa em 1948. Estudou cinema e teatro. Em 1973 fundou o Teatro da Cornucópia com Luís Miguel Cintra. Em 1995 funda a companhia Artistas Unidos, que dirige. Mostra uma foto de cena em 74, ao lado da atriz Dalila Rocha

Onde é que estava no 25 de Abril?

Tinha vindo do Coliseu, onde se cantara A Traviata (Joan Sutherland, Alfredo Kraus) e dormi em casa dos meus pais. O meu pai estava doente nesses dias. Às primeiras notícias, fui para o Parque Mayer, onde então tínhamos um espetáculo em desmontagem e que deveria partir em digressão. Era A Ilha dos Escravos  de Marivaux. Foram várias horas a desmarcar transportes, contactar a Incrível Almadense, onde deveríamos apresentar o espetáculo, avisar atores. E com que inquietação e nervosismo. Só pelo meio da tarde encontrámos as pessoas, surpreendidas, afoitas, incrédulas, destemidas, alegres. Que alegria!

Qual foi a sua reação?

Nas primeiras horas, inquietação. Logo a seguir: tem de ser, temos de seguir em frente, não podemos deixar cair esta extraordinária oportunidade, somos nós, somos nós!

Que episódio o marcou mais?

Quando, estávamos nós numa manifestação no Marquês de Pombal, soube que estavam a ser libertados todos os presos de Caxias. Era mesmo verdade: a ditadura caía, o mundo voltava a ter cara lavada. E a resposta tinha de ser nossa.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

O extraordinário foi não haver “figuras”, mas sim “gente”, tanta gente, tanta gente nas ruas, no Carmo, claro, no Marquês, mas também na Avenida da República, tanta gente que decidiu tornar nossa aquela insubmissão, descobrir o mundo, sem saber bem o que fazer. Mas com a decisão firme de não querer o que estava para trás. Tanta gente que viria a confluir naquele 1.º de Maio, uma semana depois. “Foi um sonho lindo”, diz o José Mário.

O que mudou na sua vida pessoal?

Eu tinha 25 anos e fazia teatro. Tudo mudou: outras peças, outras maneiras de nos organizarmos, outra maneira de pensar e discutir. Tempos difíceis, mas tempos limpos. Trabalhávamos 15, 16 horas por dia, a viver do nosso trabalho.  Daí a pouco tempo, corríamos o País de norte a sul, de sul a norte, a fazer teatro. E encontrávamos tanta gente, tanta gente ávida. E que não sabia como chegar ao que mais queria, tentava, ensaiava, experimentava, descobria que afinal era possível viver de outra maneira, claro. Não era só nos livros, era aqui na rua. Que lindo.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Para além de ter dado cabo de uma ditadura, o mais entusiasmante foram os primeiros dias, meses: a descoberta de que se podia viver de outra maneira, sem patrões, a viver do nosso trabalho, a terra a quem a trabalha, a pensar em outras formas de viver em conjunto, a praticar o que antes nunca fora feito, a experimentar novas escolas, artes, ruas, economias. O mais bonito foi isso: descobrir na prática que podíamos ser donos das nossas vidas, dos nossos destinos.

E de negativo?

A pouco e pouco, voltaram as “autoridades”, as “linhas justas”, o “respeitinho”, a “consideração”, o “válido”. A pouco e pouco, quiseram meter-nos na ordem. E a experiência foi-se, começaram os “modelos”: russo, americano, chinês,europeu… e viemos para dentro das casas. Foi “um sonho lindo que acabou”, também diz o José Mário Branco.

O que falta mudar?

Voltar ao início, ao dia “inicial, inteiro e limpo”, voltar a andar pela rua sem que nos mandem ir por este lado ou pelo outro, só nós com o nosso destino, cabeça, experiência. Voltou-se muito atrás nestes 40 anos, estamos a ficar asfixiados. Tomaram o poder por nós. E lá estão eles, de novo. Sim, a luta tem de recomeçar. E tem um nome (que está fora de moda): anticapitalista. E é uma luta diária, de manhã a manhã.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Nunca gostei muito das expressões “ideais”, “conquistas”… Mas gosto da palavra “combate”. Sim, não podemos deixar de combater a ver se conseguimos que a vida não seja esta porcaria em que estamos, que perdemos, este consenso mole, esta inevitabilidade. O que se sentia naqueles dias de Abril e Maio era que a vida podia ser o que a gente conseguisse que fosse. Mas não é, não.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

A situação em que vivemos é demasiado insuportável, asfixiante. É uma vida fora de nós. Claro que não conseguiremos viver mais assim, “às ordens”. Que pena, já não tenho 25 anos. Estou tão cansado, desiludido, desanimado. Nada disto é o que quis que fosse.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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