“A revolução de abril foi uma revolução inacabada”

Jerónimo de Sousa nasceu em Pirescoxe, Santa Iria de Azoia, em 1947. Começou a trabalhar aos 14 anos como operário metalúrgico. É secretário-geral do PCP desde 2004. Segura exemplar do Avante! da década de 70 com foto sua, na capa, sentado ao lado de Álvaro Cunhal.  (Steven Governo/Global Imagens)
Jerónimo de Sousa nasceu em Pirescoxe, Santa Iria de Azoia, em 1947. Começou a trabalhar aos 14 anos como operário metalúrgico. É secretário-geral do PCP desde 2004. Segura exemplar do Avante! da década de 70 com foto sua, na capa, sentado ao lado de Álvaro Cunhal.
(Steven Governo/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Na fábrica. O patrão “convidou-nos” a ir para casa, mas não aceitámos. As notícias eram contraditórias acerca da origem e dos objetivos do levantamento militar.

Qual foi a sua reação?

Aguardar pela palavra do partido. Tinha havido notícias de movimentação de militares da extrema-direita. Mas também de manifestações de descontentamento e revolta nos militares, nomeadamente a sublevação das Caldas semanas antes. Soubemos entretanto, logo nesse mesmo dia, que o partido iria falar na Praça de Alhandra na manhã seguinte. Ali, o camarada Severiano Falcão, de megafone em punho, deu a informação e o sentido da ação militar. Um episódio demonstrativo da situação aconteceu quando, durante a intervenção do camarada Severiano, o comandante da GNR deu ordem para “dispersar em cinco minutos, senão…”. A intervenção de uma patrulha de fuzileiros, vinda do Quartel de Vila Franca, resolveu a questão pacificamente.

Que episódio o marcou mais?

O 1.º de Maio de 1974! Andávamos há meses a prepará-lo no sindicato, em articulação com a Intersindical sob pressão da vigilância da PIDE. Aliás, confirmou-se posteriormente que estava programado:_nas vésperas no dia 30 de abril iriam proceder a prisões dos principais dirigentes e ativistas sindicais. Entre-tanto, António de Spínola, que não queria libertar os presos políticos, nem reconhecer o PCP, nem a publicação legal do Avante!, lançou um desafio: “Façam lá o 1.º de Maio para vermos a força que têm.” O Avante! não precisou de autorização de Spínola para ser publicado, o partido saiu da clandestinidade, os presos políticos foram libertados e o 1.º de Maio celebrado em todo o País com a dimensão que a História regista. O levantamento militar é seguido imediatamente do levantamento popular que haveria de constituir
a base da aliança povo-Movimento das Forças Armadas. Uma aliança original.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Foi o povo em movimento a assumir o papel de protagonista, no ato e no processo revolucionário que se seguiu.

O que mudou na sua vida pessoal?

Em primeiro lugar, mudaram para melhor as minhas condições de vida e da minha família. E, simultaneamente, aumentou o grau de empenhamento na vida sindical e do partido.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A resposta não cabe toda na entrevista. Naturalmente, a liberdade. O fim da guerra, a conquista de melhores salários, do direito a férias e subsídios de férias, a não ser despedido sumariamente, os direitos à segurança social, à saúde, ao acesso ao ensino, o direito à greve, à manifestação. O fim do medo de ser preso ou perseguido, poder ver Portugal a abrir as portas ao mundo, ver o fim do domínio do meu País por um punhado de famílias de agrários e monopolistas. E há uma conquista de Abril que não vem nos livros de História: foi devolvida ao povo a alegria de viver.

E de negativo?

O poder político ter sido entregue aos que, batendo com a mão no peito por Abril, encetaram a contrarrevolução, a recuperação e a restauração capitalistas. Sabe que todos eles, salvo o CDS, creio, na altura falavam do socialismo?

O que falta mudar?

Mudar e romper com esta política de direita que, executada pelos sucessivos governos das últimas décadas, conduziu o País para as injustiças, para o desemprego, para o empobrecimento e para a dependência.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Se faz sentido? Basta olhar para a realidade. Considero que apesar do retrocesso, apesar do grau de destruição das suas conquistas, das transformações e das realizações, os valores de Abril são indestrutíveis e condição crucial para um Portugal com futuro.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

As revoluções não se decretam. A Revolução de Abril foi uma revolução inacabada. E como considero que nada está perdido para todo o sempre, mais do que uma nova revolução há que lutar, lutar muito, para que os seus valores se materializem de novo e integrem o nosso devir coletivo. É necessário e possível devolver ao povo português a alegria de viver!

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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