“Em 74 não era coisa pouca um rapaz de 17 anos dançar”

Rui Horta, coreografo
Rui Horta nasceu em Lisboa, em 1957. Começou a dançar aos 17 anos nos cursos do Ballet Gulbenkian. Dirigiu a Companhia de Dança de Lisboa. Trabalhou e deu aulas de dança em vários países europeus, estabeleceu-se no Alentejo em 2000. Mostra o cartão de estudante internacional da década de 70 (Luís Pardal/Global Imagens)

Onde é que estava no 25 de Abril?

Tinha 17 anos e estava em casa. Claro que, ao fim do dia, fui para a Baixa-Chiado celebrar.

Qual foi a sua reação?

Desde a Intentona das Caldas, em março, que se pressentia um ambiente de fim de regime, mas ninguém sabia muito bem o que poderia acontecer. Quando nos apercebemos de que era um golpe contra a ditadura, foi um grande alívio e um grande entusiasmo.

Que episódio o marcou mais?

Lembro-me de ficar fascinado ao ver alguns “contínuos” do Liceu Camões, onde estudava, que eram informadores da PIDE, a fugir de nós. Obviamente que as imagens do Largo do Carmo foram muito marcantes, mas talvez o mais marcante tenha sido a facilidade com que, nas semanas seguintes, as pessoas se juntavam e em poucos minutos faziam uma manifestação espontânea. Recordo-me de, com um grupo de colegas do Liceu Camões, ir para casa “de ‘manif’”, ou seja: preparávamos uns cartazes em simples folhas A4 e, à saída da escola, começávamos a gritar palavras de ordem. As pessoas acorriam de qualquer lugar e, ao fim de uns quarteirões, já eram umas centenas. Seguíamos até perto das nossas casa, abandonávamos o cortejo, e a “manif” seguia o seu percurso sabe-se lá para onde…

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Sem dúvida que o Salgueiro Maia e o Otelo Saraiva de Carvalho.

O que mudou na sua vida pessoal?

Tanto. A própria relação dentro da família mudou, pois cada um passou a manifestar-se com muito mais frontalidade. Para um jovem de 17 anos, como eu, foi muito importante todo o exercício reflexivo e a intensa discussão política que se seguiu. Foi o 25 de Abril que permitiu também uma libertação do meu corpo, já que em 1974 não era coisa pouca um rapaz de 17 anos começar a dançar.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Sem dúvida a liberdade, a democracia e o fim da Guerra Colonial. Foi percorrido um caminho notável ao nível das infraestruturas do País, nomeadamente no acesso à água potável e saneamento, à rede elétrica, às vias de comunicação, bem como a implantação do SNS e do poder autárquico. Foi também muito importante o esforço da alfabetização, bem como o acesso da população aos níveis de ensino secundário e universitário. Tudo foi conseguido no espaço temporal de uma geração e disso nos devemos orgulhar e explicar aos mais novos.

E de negativo?

Como sempre, em mudanças sociais desta profundidade, há injustiças. Muitas ocupações foram abusivas, por exemplo. No entanto, chamaram a atenção para a enorme injustiça na distribuição da riqueza. Neste capítulo não fizemos grandes progressos. Apesar de o processo de descolonização ter sido caótico e doloroso, foi notável a capacidade de integração das centenas de milhares de retornados, o que fala fundo sobre a solidariedade e resiliência do nosso povo.

O que falta mudar?

Muita coisa! Temos uma classe política fraquíssima, articulada à volta dos seus próprios interesses e desligada dos cidadãos. É fundamental uma nova lei eleitoral que abra o Parlamento à sociedade civil, bem como novas regras partidárias para que os partidos se abram à sociedade. Precisamos de uma justiça que funcione, sobretudo para os mais pobres, e que deverá ser implacável com os crimes de colarinho branco. Precisamos de um ensino com uma escola aberta, onde aprender seja uma aventura, um ensino vinculado à realidade em que os jovens entendam o papel da escola no seu futuro. Um ensino mais próximo da prática, que estimule o aprender fazendo, as estratégias de colaboração e não apenas um decorar de conteúdos. Temos conteúdos a mais e pouco interessantes. É essencial um ensino que estimule autorresponsabilização, baseado num sistema motivacional, que é a única forma de os alunos estudarem, e muito! É o que deles se exige, num mundo cada vez mais competitivo. E precisamos de cultura! Nas complexas sociedades de hoje, só os que têm um forte pensamento crítico conseguem perceber as oportunidades que se lhes oferecem. Os demais serão engolidos por uma onda avassaladora em que impera o consumo, o lixo mediático, a iliteracia, etc. A cultura, tal como a ciência e a educação, atua na valorização do capital humano, aquilo de que Portugal mais precisa para ser mais competitivo. É urgente que a cultura seja parte do discurso político. Foi um enorme retrocesso acabar com o Ministério da Cultura.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Claro que sim! Mas é fundamental que nas famílias, na escola e nos media este assunto esteja presente. É essencial que os jovens percebam a poética coletiva que contaminou Portugal e fez o País arregaçar as mangas nesses anos.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Sem dúvida que sim! Precisa de uma revolução no ensino, uma revolução nas consciências e uma revolução na sociedade civil, que tem de assumir as suas responsabilidades e não delegar no “outro” a solução dos seus problemas. Temos de aprender a estar perante o poder convictos das nossas ideias e saber unir-nos, para impor as mudanças num país com uma herança histórica de grupos de interesse, lobbies, e corporações, que sempre foi controlado por um forte poder centralizador.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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