“Não é uma revolução que muda as mentalidades”

Eduarda Abbondanza nasceu em Lisboa em 1962. Estudou estilismo e estagiou no ateliê de Ana Salazar. Viveu em Itália na década de 1980. Lançou, em 1990, a ModaLisboa, com Mário Matos Ribeiro. Mantém--se hoje como única diretora da associação. Segura uma fotografia da década de 1970, onde posa ao lado da mãe (Steven Governo/Global Imagens)
Eduarda Abbondanza nasceu em Lisboa em 1962. Estudou estilismo e estagiou no ateliê de Ana Salazar. Viveu em Itália na década de 1980. Lançou, em 1990, a ModaLisboa, com Mário Matos Ribeiro. Mantém-se hoje como única diretora da associação. Segura uma fotografia da década de 1970, onde posa ao lado da mãe (Steven Governo/Global Imagens)

Onde estava no 25 de Abril?

Estava em casa, em Lisboa. Os meus pais não me deixaram ir para a escola.

Qual foi a sua reação?

Não percebia bem o que é que estava a acontecer. Os meus pais percebiam, mas não nos deixaram sair. Trancaram-nos em casa porque era uma tomada de poder, uma revolução, e até à data não havia histórico de revoluções sem tiros. Só a posteriori  é que se percebeu que o 25 de Abril foi a Revolução dos Cravos. Lembro-me de que as persianas foram descidas porque havia aviões no ar ou helicópteros.

Que episódio a marcou mais?

O 25 de Abril foi um dia que não me saiu da cabeça, por essa questão de se fecharem as persianas, pelo ar preocupado dos meus pais, pelo facto de não podermos sair de casa sabendo que estava a acontecer alguma coisa que era estrutural. Sei que, quando finalmente saí, apanhei tanques nas ruas. A televisão foi interrompida mas depois, pelos telejornais, mesmo sem perceber politicamente o significado, comecei a perceber o que se passava na cidade. Fiz alguma pressão para sair de casa, se bem que até ao dia 25 de abril a minha autorização para sair de casa era muito limitada.

Qual é a figura que, na sua opinião, marcou o 25 de Abril?

Uma coisa é responder com a informação que tenho agora, com uma opinião formada. Outra coisa são as figuras que, naquela altura, ficaram marcadas, os nomes que se ouviam era Mário Soares, Álvaro Cunhal e Otelo Saraiva de Carvalho. Houve outros nomes que me ficaram no ouvido, como o RALIS, o quartel ao pé do aeroporto, a PIDE, a Rua An­tónio Maria Cardoso.

O que mudou na sua vida pessoal?

A liberdade. Passei a sair a todas as horas. E era muito difícil para os pais controlarem, porque não havia aulas. De certa maneira, foi a destruição de um dia-a-dia de há tantos anos. Eu estudava num liceu muito rigoroso, no Rainha Dona Amélia. A reitora, Maria dos Remédios, recebia sempre a medalha de honra pela gestão, era um liceu muito conceituado que servia a zona do Restelo. E eu tinha muitas faltas de castigo: quando foi o 25 de Abril ainda não tinha tido um recreio, porque assim que acabava um conjunto de castigos já tinha outro em fila de espera. Foi o 25 de Abril que me salvou a pele nesse ano. Não tinha aulas, mas também não tinha castigos. Até ali, estava sempre de castigo com a minha amiga Rita e a minha amiga “Pico­ques”. Sempre as três.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Cresci imenso em pouco tempo. A informação circulava por todo o lado, as pessoas estavam completamente em êxtase. Mas não havia uma perceção igual para toda a gente do que se estava a passar. Os meus pais eram cultos, não tinham ligação política nenhuma, mas pelas suas atividades percebi que eles sabiam que alguma coisa iria acontecer, que ia haver um volte-face. E isso foi bom, porque eles foram importantes na explicação do que se passava. E toda a gente andava na rua, era normal, deixou de ser uma coisa estranha. Houve depois alguns momentos de recolher obrigatório, que foram uma coisa esquisita que a minha mãe me tentava explicar. Mas su­bli­nho a liberdade e o contacto, toda a gente falava com toda a gente. Havia uma grande comunicação.

E de negativo?

Trouxe, a seguir, uma falta de organização no País. Durante muitos anos não havia nada para fazer. Havia a militância nos partidos e nas associações de estudantes, também passei por isso. Mas todos passámos, era inevitável. Só que não era isso, propriamente, que me preenchia. Eu queria continuar a estudar, a fazer projetos. E nesse aspeto não se passava nada. E lembro-me de Lisboa fechada, nem sequer havia transações. Entretanto, nos anos que se seguiram ao 25 de Abril, casei e precisava de uma casa. O meu pai não conseguia comprar a casa. Teve de comprar um prédio em Alcântara, porque o prédio tinha um andar vago. Estava tudo fechado, as pessoas tinham fugido, tinham ido para o Brasil, nem se sabia a quem pertencia cada casa. Mas, como havia o movimento dos “ocupas”, a principal preocupação era não demonstrar que a casa estava vazia.

O que falta mudar?

O 25 de Abril foi a entrada da democracia em Portugal e grande parte da minha vida foi feita pós-25 de Abril. Por isso, hoje em dia relaciono-me com a sociedade enquanto sociedade democrática e o que é que, numa sociedade democrática, está bem ou mal. Antes do 25 de Abril éramos um País parado, fechado sobre si mesmo, claustrofóbico, que de repente se abre para o mundo. E abre quando eu, “pessoa­zinha”, adolescente, poderia abrir-me também para o mundo. O País mudou muito desde então e é difícil de responder o que falta mudar, porque o mundo está em mudança hora a hora, minuto a minuto. Podemos sempre melhorar. Mas antes, tínhamos uma ligação à terra, às atividades próprias de cada geografia, que depois da entrada para a Comunidade Europeia foram artificialmente modificadas. Fiz há pouco tempo uma viagem ao Peru e, no regresso a Lisboa, alguém que eu conheço de Lima mas que vive cá em Portugal dizia-me “pois, lá é mais atrasado”. E não foi  essa a sensação que eu tive, porque não havia lá um centímetro de terra que não estivesse plantado. Não chamo a isso atraso. E essa era a ideia que eu tinha de Portugal antes da entrada para a Comunidade Europeia.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Nos ideais genéricos, sim. Nos princípios da democracia, da igualdade, do direito ao trabalho, do direito à saúde, da liberdade, da responsabilidade.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Acho que Portugal precisa de muitas revoluções, como muitos outros sítios. Precisa de uma revolução de mentalidades, claramente, porque é muito difícil mudar mentalidades. Vou negar aquilo que acabei de dizer, mas não é uma revolução que muda as mentalidades. Pode alterar os pressupostos, as leis. Mas a cabeça das pessoas leva muito tempo a mudar. Nós vivemos em liberdade não há tanto tempo assim, eu já era nascida em 1974 e hoje não me considero velha, por isso a liberdade é relativamente jovem. E quanto à mentalidade, acho que somos muito preconceituosos, um preconceito que não faz sentido, é desatualizado, fechado, cinzento. Muitas vezes, ao nível dos governantes e da política.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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