“O 25 de abril foi um único dia que só terminou no 1.º de maio”

Alice Vieira nasceu em Lisboa em 1943. Licenciada em Filologia Germânica. Foi jornalista desde 1969, passou pelo Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias. Na década de 90 torna--se escritora a tempo inteiro, reconhecida na escrita infantojuvenil. Na foto ao lado, da década de 70, entrevista Jacinto Ramos, Luz Franco e David José para o DN.
Alice Vieira nasceu em Lisboa em 1943. Licenciada em Filologia Germânica. Foi jornalista desde 1969, passou pelo Diário de Lisboa, Diário Popular e Diário de Notícias. Na década de 90 torna-se escritora a tempo inteiro, reconhecida na escrita infantojuvenil. Na foto ao lado, da década de 70, entrevista Jacinto Ramos, Luz Franco e David José para o DN. (Paulo Spranger/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

A chegar a casa, tardíssimo, depois de uma récita memorável da Traviata no Coliseu, com Alfredo Kraus (que até morrer, sempre que nos encontrávamos, dizia: “Os primeiros cravos do 25 de Abril foram para mim!”).

Qual foi a sua reação?

Mesmo a primeira reação foi de medo: “Este é o golpe do Kaúlza!”, lembro-me de ter dito para o meu marido, depois de terminar o telefonema da velha tia com insónias, que passava a noite inteira agarrada à rádio, e que ligara a dizer : “Passa-se qualquer coisa esquisita”… Depois, como todos os jornalistas, voei para a redação do jornal. E quando já se sabia que não era um golpe de direita, e que finalmente tudo ia ser diferente, lembro-me de dizer para o Fernando Teixeira, então chefe de redação do Diário Popular e que nos retalhava os textos mais do que os coronéis da censura: “Se o senhor hoje me corta nem que seja uma vírgula, nunca mais aqui ponho os pés.” E ele, calmíssimo: “Minha senhora, nesta casa nada mudou nem mudará!” Passadas algumas horas… era saneado.

Que episódio o marcou mais?

Para mim, o 25 de Abril foi um único dia que só terminou no 1.º de Maio. Não me lembro de voltar a casa, não me lembro do que fiz aos filhos, só me lembro de andar a correr de um lado para o outro, de reuniões a toda a hora e de sermos chamados para aqui e para ali, discutirmos tudo. Havia sempre muitas reuniões na EPAM, mas não me lembro para quê. E depois, a extraordinária manifestação do 1.º de Maio, em que a cidade em peso estava na rua. Nunca hei de voltar a ver uma coisa como essa.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

O capitão Salgueiro Maia.

O que mudou na sua vida pessoal?

Podia estar num café a falar à vontade com quem eu quisesse. Pude casar-me, com as leis do Salgado Zenha, e desfrutar de todas as coisas de que todas as mulheres beneficiaram. No ponto de vista profissional, mudou tudo: escrever, de um dia para o outro, sem censura, sem utilizar metáforas, sem omitir nomes, sobre todos os assuntos, foi extraordinário… Mas não foi fácil. Há muitos anos que o nosso cérebro estava, diríamos hoje, formatado. Desformatá-lo foi difícil.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

A liberdade. E isso não há nada que pague.

E de negativo?

Diante da liberdade adquirida, o negativo tem pouca importância.

O que falta mudar?

Eu sei que é um lugar-comum, mas lá por isso não deixa de ser verdade: as mentalidades das pessoas.
E isso é tarefa ciclópica. O gosto pela educação, pela cultura. Nos tempos da Segunda Guerra, no Parlamento inglês, tentava-se aprovar mais cortes para o “esforço de guerra”. E alguém foi de opinião de que se devia cortar na cultura. E Churchill respondeu: se cortássemos na cultura, “then what were we fighting for?”.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Faz sempre falta. Porque – é preciso repetir isto muitas vezes – nada é adquirido para sempre.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Portugal precisa de investir no que realmente vale a pena, saber quais as prioridades e lutar por elas. Parece tão fácil, não parece?

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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