“O 25 de Abril é uma ação de enorme generosidade”

Entrevista - António Cruz Serra
António Cruz Serra nasceu em Coimbra em 1956. Licenciou-se em Engenharia Eletrotécnica. Doutorou-se no Instituto Superior Técnico, a que presidiu. É, desde 2013, reitor da nova Universidade de Lisboa (UL). Posa na reitoria da UL junto a um painel comemorativo dos 40 anos do 25 de Abril (Vítor Rios/Global Imagens)

 

Onde é que estava no 25 de Abril?

Estava no Porto, andava no primeiro ano da faculdade, tinha 17 anos. São memórias muito fortes.

Qual foi a sua reação?

Foi muito engraçado, porque passei a noite anterior numa conversa com amigos, politicamente muito radicais, a explicar-lhes que o regime não mudava de um dia para o outro. Isto tudo no dia 24 de abril. Quando me acordaram no dia 25 de Abril, muito cedo, para me dizerem “António, há uma revolução!”, eu não acreditei e continuei a dormir durante mais algum tempo, até que insistiram. Aí, sim, acordei. É a memória que tenho mais forte: fora uma noite de discussão política sobre a democracia, sobre o regime, sobre tantas coisas. Lembro-me perfeitamente de isto ter acontecido e de ter sido uma coisa marcante. Depois, passei o dia 25 de abril juntamente com os colegas da faculdade, com grande alegria e também com a expectativa de saber o que é que iria acontecer. Houve logo umas manifestações no dia 25 de abril, houve distribuições de panfletos. E houve alguma confusão com as pessoas que se encarregavam da repressão do movimento estudantil na altura.

Que episódio o marcou mais?

No dia 25 de abril, fundamentalmente, a sensação de liberdade e de democracia que vinha aí. E que nos iria tornar um País normal, sem o chumbo daqueles dias que antecederam o 25 de Abril.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

É muito difícil responder a essa pergunta hoje. A tentação é distinguir o Salgueiro Maia: por já ter morrido, por ter morrido jovem, porque sem ele não teria havido 25 de Abril. Eu sei que sem outros também não, e alguns dos que estão vivos vão levar-me a mal dizer isto, mas acho que alguém que nunca quis nada depois do 25 de Abril é talvez a pessoa que se deve distinguir.

O que mudou na sua vida pessoal?

A nossa vida mudou completamente nesse dia. Eu era estudante, continuei a ser estudante, mas passei a viver num país em que se podia falar, dizer o que entendêssemos, expressar as nossas opiniões.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Trouxe a liberdade, trouxe a democracia, trouxe o progresso. Nós somos muito críticos em relação à situação de Portugal, às vezes bem, outras vezes em exagero. Mas quem se lembrar do País de há 40 anos e vir o País de hoje, vê um País completamente diferente, com enorme progresso sob todos os pontos de vista. As dificuldades políticas e económicas por que estamos a passar não devem ser assacadas ao 25 de Abril. O 25 de Abril foi um momento único de libertação, de alteração de regime. Muito daquilo por que passamos são os nossos defeitos, é a nossa classe política pouco preparada, é pouco sentido de Estado, pouca generosidade na condução dos destinos do País.

E de negativo?

É sempre fácil apontar pontos negativos. Há perturbações que resultam de uma revolução, que foi o que se seguiu a um golpe de Estado. Foi um grande transtorno para a vida de muita gente, seguramente. Foi um grande transtorno a descolonização para os que estavam em África, foi uma enorme perturbação na nossa economia também por força das medidas que acabaram por ser tomadas – umas foram corrigidas bem e outras não foram corrigidas bem. Mas não acho que se deva partir daí para colocar esse lado negativo no 25 de Abril, porque o 25 de Abril é uma ação de enorme generosidade de um conjunto de militares que nos trazem a liberdade. E os ideais de Abril, no sentido da democracia, desenvolvimento, da liberdade, foram plenamente cumpridos.

O que falta mudar?

Falta mudar, para melhor, a gestão da coisa pública, seguramente.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Faz sentido falar deles como ideais de liberdade e de democracia, que são ideais e valores fundamentais da nossa sociedade.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Acho que devemos dizer essas coisas com ponderação, com calma. Portugal precisa de mudar, precisamos de nos entender, de escolher um modelo de desenvolvimento económico; precisamos de criar riqueza, precisamos de políticas que nos deem esperanças e que nos façam acreditar num país melhor. Mas precisamos, fundamentalmente, é de ir votar a cada quatro anos e escolher quem decide o destino do País.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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