“Descobri, a partir de então, o que era ser militante político”

David Justino nasceu em Oeiras em 1953. Licenciou-se em Economia e doutorou-se em Sociologia. Foi ministro da Educação entre 2002 e 2004. É desde 2013 o presidente do Conselho Nacional de Educação. Ao lado, numa foto da década de 70.
David Justino nasceu em Oeiras em 1953. Licenciou-se em Economia e doutorou-se em Sociologia. Foi ministro da Educação entre 2002 e 2004. É desde 2013 o presidente do Conselho Nacional de Educação. Ao lado, numa foto da década de 70.

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

Depois de uma primeira tentativa de entrar em Lisboa, vindo de carro com o meu pai, pela Estrada Marginal, decidimos regressar a Oeiras, dado o bloqueio que estava a ser feito em Belém. Acompanhei o decorrer d

os acontecimentos no Largo 5 de Outubro, como o resto da população, ouvindo pela rádio o pouco que se poderia saber.

Qual foi a sua reação?

Nos meses anteriores, a revolta de 16 de março tinha falhado e antes já se falava também de uma tentativa sem sucesso de Kaúlza de Arriaga. Mais uma tentativa de golpe militar tinha de ser muito bem esclarecida: a minha reação, tal como a de meu pai, traduzia-se em ver para crer. Se bem me lembro, só ao final da manhã se começou a expressar a alegria e a esperança, traduzidas na frase: “Agora é que é!”

Que episódio o marcou mais?

Julgo que a festa do 1º de Maio foi a que me marcou mais. Foi um dia inesquecível!

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Confesso que não dou muita importância às “figuras”. Por defeito profissional, tendo a privilegiar mais os processos e menos os atores. Mas se tiver de avançar com uma figura que me despertou tanto de expectativa como de desconfiança, terei de eleger António de Spínola. Os capitães, durante algumas semanas, não eram conhecidos do grande público. E mesmo Salgueiro Maia só veio a ser identificado como um dos principais protagonistas quando se começou a refletir sobre o seu papel militar e o seu desprendimento político. Foi isso que o fez um herói do 25 de Abril.

O que mudou na sua vida pessoal?

Era estudante do 3.º ano do curso de Economia no ISCEF (atual ISEG) e descobri, a partir de então, o que era ser militante político. Primeiro, no movimento
associativo de estudantes onde já colaborava, depois ao nível partidário, no então criado Movimento de Esquerda Socialista (MES).

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Liberdade e democracia. Estes são os pilares fundamentais, tudo o resto vem daí.

E de negativo?

O oportunismo e a irresponsabilidade política, a retórica e a demagogia revolucionária que quase deitavam a perder o que se conquistou de bom para Portugal.

O que falta mudar?

O fundamental para um regime democrático: confiança! Confiança nas instituições democráticas, transparência no funcionamento da administração, uma cultura política centrada mais no cidadão e menos no Estado, ética de responsabilidade e de participação.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Claro que faz, ainda que a expressão “ideais de Abril” tenha sido capturada ideologicamente, identificando-os com alguns sectores minoritários da sociedade portuguesa. O espírito de Abril parece-me claramente identificado com os valores da liberdade e da democracia, mas compreendo que muitos o entendam de forma diferente fazendo-os encaixar nos seus projetos de sociedade.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Isso soa-me a saudosismo revolucionário pouco condizente com o funcionamento de uma democracia. O recurso à violência revolucionária, com mais ou menos cravos, num regime democrático é sempre atentado à liberdade. Uma coisa é a violência contra a opressão e regimes ditatoriais e totalitários, outra é o recurso à violência em democracia e liberdade, que, para todos os efeitos, é sempre um retrocesso civilizacional.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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