“O Portugal de hoje é imensamente melhor que o da década de 70”

João Cravinho nasceu em Angola em 1936. Licenciou-se em Engenharia Civil, em Lisboa, e estudou Economia em Yale e Oxford. Fez parte do IV Governo Provisório em 1975. Foi deputado na AR e no Parlamento Europeu. Entre 1995 e 1999 foi ministro do Equipamento. Segura fotografia sua da década de 70, falando aos jornalistas
João Cravinho nasceu em Angola em 1936. Licenciou-se em Engenharia Civil, em Lisboa, e estudou Economia em Yale e Oxford. Fez parte do IV Governo Provisório em 1975. Foi deputado na AR e no Parlamento Europeu. Entre 1995 e 1999 foi ministro do Equipamento. Segura fotografia sua da década de 70, falando aos jornalistas (Gustavo Bom/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

Estava em Viena, na Áustria, onde participava, juntamente com colegas, numa conferência internacional de economia.

Qual foi a sua reação?

A meio da tarde, disseram-nos que estava em curso um golpe de Estado em Portugal, com tropa nas ruas de Lisboa sem se saber bem às ordens de quem. Lançámo-nos freneticamente na busca de informações. Os noticiários eram naturalmente em alemão, língua que nenhum de nós dominava. E os nossos intérpretes continuavam a dar-nos informação incerta sobre a origem da movimentação militar. Pensávamos que tanto poderia ser tropa às ordens do general Kaúlza como sob o comando do Movimento dos Capitães. Quando pudemos ver imagens na televisão e soubemos dos comunicados do MFA, encheu-nos uma alegria incontida, das mais fortes que tive na minha vida. Procurei regressar de imediato a Portugal. A primeira ligação aérea possível era no dia 26 de manhã cedo, Viena-Paris-Lisboa. À última hora, ainda no hotel, verifiquei que tinha perdido o passaporte. Decidi prosseguir para o aeroporto e tentar o embarque. A muito custo, compreenderam as minhas especiais circunstâncias e deixaram-me embarcar indocumentado em Viena, avisando-me de que certamente as autoridades francesas não me deixariam seguir para Lisboa.
À chegada a Paris, de facto, não consegui demover os agentes do controlo de passaportes. Depois de insistentes pedidos meus, compareceu o responsável pelos serviços que me interrogou com alguma hostilidade. A certa altura, sorriu, disse-me que um agente me acompanharia à porta de embarque para Lisboa, apertou-me a mão e desejou boa sorte a Portugal.

Que episódio o marcou mais?

Na realidade, a extraordinária euforia de liberdade que culminou no 1.º de Maio.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Duas figuras, em planos diferentes: Otelo Saraiva de Carvalho e Salgueiro Maia.

O que mudou na sua vida pessoal?

Mudou muitíssimo. Estava a fazer um doutoramento em Economia em Oxford, já razoavelmente avançado. Pensei que, bem mais importante do que uma eventual carreira académica, era participar na vida política e cívica do novo Portugal, tão intensa e ativamente quanto pudesse.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Os enormes benefícios morais e materiais que só a liberdade pode propiciar. O Portugal de hoje é imensamente melhor do que o do início da década de 70. Numa geração, o País chegou a um limiar mínimo europeu, apesar da perda de élan da última década.

E de negativo?

O negativo não é do 25 de Abril, mas da nossa responsabilidade coletiva na irresponsabilidade predadora que deixámos livre de corromper boa parte da nossa democracia.

O que falta mudar?

Falta mudar isso mesmo.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

Cada vez mais, faz todo o sentido falar deles como ideais de referência comum.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

A resposta está nas três questões anteriores!

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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