“É preciso restaurar o sentido do serviço público. Desapareceu”

Luís Nobre Guedes nasceu em Lisboa em 1955. Licenciou-se em Direito, em 1976. Foi um dos fundadores do semanário O Independente. Foi deputado da AR e do Parlamento Europeu. Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território no XVI Governo Constitucional. Ao lado, numa foto da década de 70. (Leonardo Negrão/Global Imagens)
Luís Nobre Guedes nasceu em Lisboa em 1955. Licenciou-se em Direito, em 1976. Foi um dos fundadores do semanário O Independente. Foi deputado da AR e do Parlamento Europeu. Ministro do Ambiente e do Ordenamento do Território no XVI Governo Constitucional. Ao lado, numa foto da década de 70. (Leonardo Negrão/Global Imagens)

Onde é que estava no dia 25 de Abril?

No dia 25 de Abril de 1974 estava em Portugal, a viver em casa de família e a frequentar o segundo ano da licenciatura em Direito.

Qual foi a sua reação?

Primeiro, incrédulo. O golpe das Caldas estava muito presente. Depois, naturalmente, regozijei. Afinal, não fui exceção no País.

Que episódio o marcou mais?

O anúncio da Junta de Salvação Nacional e a nomeação do primeiro Governo Provisório. Estava aí representado todo um País ávido de mudança.

Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?

Spínola. Com todas as suas contradições, hesitações, mas portador daquele que sempre entendi que deveria ter sido o espírito do 25 de Abril.

O que mudou na sua vida pessoal?

Tudo. A família emigrou. A licenciatura ficou reduzida a pó. Tive de ir pedir emprego para sobreviver. Também passei pelo Brasil.

O que de positivo trouxe o 25 de Abril?

Sem dúvida, depois do 25 de Novembro, a liberdade.

E de negativo?

Um país sem rumo. A trilogia democratizar, descolonizar e desenvolver esgotou-se. Depois da Europa, andamos a navegar à vista.

O que falta mudar?

Encontrar um novo desígnio nacional, encontrar as novas janelas de esperança e liberdade.

Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?

A democracia está consolidada. A dor da descolonização perdurará por gerações e gerações. No desenvolvimento está (quase) tudo por fazer. Há um país a cumprir.

O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?

Portugal precisa de ser um País diferente. Temos de acabar com uma mentalidade mesquinha e medíocre. Há que acreditar no mérito, no risco, no sucesso. E provar que nada disto é incompatível com o Estado social, muito pelo contrário. Portugal tem de se reencontrar no mundo. Não temos nada que ver com o País atrasado, pobre e subdesenvolvido do século XX. Temos condições de ser uma referência no século XXI, não só ao nível europeu como mundial. A globalização e o nosso lugar estratégico e histórico são-nos muito favoráveis. Mas é preciso, também, restaurar o sentido do serviço público, nomeadamente na política. Desapareceu. Deu lugar ao credo do dinheiro.

Entrevista editada por Bárbara Cruz

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