
Onde estava no 25 de Abril?
No jornal O Século. Era alta madrugada, fechava a edição do jornal e ligou-me um amigo a dar conta de movimentações militares. De pronto liguei esse facto a informações que me iam chegando.
Qual foi a sua reação?
De uma alegria ainda contida, à espera de confirmação. Lembrava-me do assalto ao quartel de Beja, da tentativa das Caldas, tinham dado para o torto. Mas chamei toda a redação e vamos a isto. Ainda hoje, nas paredes do Sindicato de Jornalistas, estão posters a reproduzir as primeiras páginas de umas seis edições que fomos publicando até à tarde seguinte.
Que episódio o marcou mais?
A sensação que, julgo, tornaria feliz qualque jornalista: o encontro com a liberdade de imprensa. Uma novidade para todos, ou quase todos, os profissionais desse tempo.
Qual é a figura que na sua opinião marcou o 25 de Abril?
Salgueiro Maia. É um símbolo da coragem, aliada ao sentido do dever e à modéstia de quem nunca procurou glória pessoal.
O que mudou na sua vida pessoal?
Na vida pessoal, pouco. Quase nada. Na profissional, o entusiasmo novo de quem entra em caminho aberto e livre. Nunca me filiei em qualquer partido político por considerar que uma ligação desse tipo colide com a independência do jornalista. Mas a existência de partidos políticos em Portugal era o meu sonho, antes que se tornasse realidade.
O que de positivo trouxe o 25 de Abril?
O bem maior da liberdade. Mas não imaginei, nessa altura, que 40 anos depois tantos portugueses vivessem na pobreza e a própria classe média para lá caminhasse.
E de negativo?
Era natural que muitas pessoas unidas no desejo de ver cair o velho regime se desunissem depois, nas opinões quanto ao futuro a construir. Penso que alguns consensos, agora tão reclamados em circunstâncias diferentes, poderiam ter evitado retrocessos.
O que falta mudar?
As políticas que fazem de Portugal um país por conta de outrem, baseando-se nas cobranças fáceis – apontadas aos que trabalham e aos que trabalharam.
Ainda faz sentido falar nos ideais de Abril?
Os ideais não morrem, sobretudo quando se alicerçam no respeito pelos valores do humanismo.
O que acha quando se diz que Portugal precisa de uma nova revolução?
Depende do sentido em que se utiliza a palavra. Revolução armada não faz hoje qualqer sentido. Revolução de mentalidades, num sentido que o próprio Papa iniciou, acabará por traduzir-se em modificações profundas na vida das populações. E isso é política.
Entrevista editada por Bárbara Cruz